20
mai
2015

De bunda para Lua: quando a vida nos coloca do avesso e descobrimos esse ser o melhor lado

Lembro-me a primeira vez que encontrei com a Rose: parecia tão frágil, tão cheia de medos. Foi em um emocionante chá de bençãos. Rose estava com poucas semanas de gestação. Ainda estava em luto pela morte de seu pai adorado. Rose me contou que convivia com uma depressão severa por anos.

A gestação foi caminhando e fomos nos aproximando. Muitas vezes o medo abatia a menina loira de olhos apertados. Mas a vontade de coragem de prosseguir era maior. Ela se preparou para um parto domiciliar.

Com 35 semanas Clara estava pélvica. Rose tentou duas versões externas, uma manobra em que o obstetra vira o bebê fora da barriga. Com o bebê pélvico Rose foi colocada naquelas bifurcações que a vida nos coloca. Não foi só Clara que estava de cabeça para baixo mas a vida de Rose também. Diante dos saculejos da vida, de ponta cabeça, a coragem veio com força. Estava lá no fundo, bem dentro.

Com quase 41 semanas Rose encarou um parto pélvico depois de 2 dias de pródromos intensos. Tomou anestesia para descansar da longa jornada anterior. Pariu sua bebê, que estava sentada de pernas em lótus. Clara nasceu sorrindo e sua chegada foi clareando a vida, os sonhos e a verdadeira Rose que nasceu com sua bebê de bunda virada para lua. Quando a vida nos coloca do avesso podemos descobrir que esse pode ser o nosso melhor lado.

Relato de parto por Rose e Clara

28/01/2014 – Maternidade Sofia Feldman

Gestação
Em fevereiro de 2014 me descobri grávida para alguns dias depois constatar que se tratava de gestação ectópica. A alegria que me invadiu se transformou em profunda tristeza e eu passei por dois hospitais particulares em Belo Horizonte em busca de tratamento. No primeiro, a médica queria realizar cirurgia para interrupção da gestação imediatamente. Eu perderia minha trompa direita e, sabendo que eu atendia os critérios para tratamento medicamentoso, pedi que me dessem alta e procurei o segundo hospital. Fui tratada com medicação e fiz o acompanhamento adequado, o que não me poupou de violência obstétrica nos dois hospitais. Eu, que já estudava sobre parto natural, tive ainda mais certeza de que protegeria meu corpo e meu bebê em uma próxima gestação. A certeza do parto humanizado ganhou mais força dentro de mim.

15 dias após o aborto eu perdi meu pai, meu melhor amigo. Nossa relação era muito íntima. Faço tratamento para controlar depressão profunda há 8 anos e estava estabilizada mas esses dois baques me jogaram em um episódio de depressão. Episódio esse agravado pela ausência da medicação que eu havia interrompido para poder engravidar.

2 meses depois eu já estava novamente grávida, mas dessa vez além da felicidade, afinal foi um bebê muito desejado e planejado, fui invadida por um medo muito grande que me angustiou por toda a gestação. Medo de perder o bebê, medo de não ser boa suficiente para cria-lo bem, medo, medo, medo. E esses medos começaram a enfraquecer minhas certezas sobre o parto, já que os amigos e familiares que me rodeavam não eram exatamente apoiadores da causa, ao contrário, sempre sugeriram cesárea como opção mais fácil e segura.

Conheci Kalu Brum com apenas 9 semanas de gestação em um chá de bênçãos na casa dela. Ela me sugeriu fazer pré natal com a enfermeira Míriam Rego, que inclusive me deu aula na PUC, e com o obstetra Lucas Barbosa. Procurei Míriam mas não dei continuidade ao pré natal com ela porque não me sentia capaz de parir. Continuei com o médico do plano, na vã esperança de que “se é pra ser, Deus dá um jeito”. Kalu e eu mantivemos contato durante toda a gravidez. Mesmo eu não tendo disponibilidade emocional para frequentar o Ishtar e os chás de bênçãos que se seguiram, ela sempre me incentivava e insistia que eu era capaz de parir meu bebê e dar a ele um nascimento respeitoso, amoroso.

Com 17 semanas sofri 5 crises de pânico em 5 dias seguidos e precisei voltar com a medicação psiquiátrica. Isso só aumentou meus medos de prejudicar minha filha (já sabíamos que era a nossa Clara que estava por vir), e nesse momento eu joguei a toalha: faria parto normal frank ou cesárea com o GO fofinho do plano. Eu que tenho formação em enfermagem, que estudei tanto sobre as formas de nascer, estava jogando meu sonho fora e decidindo privar minha filha de uma experiência de nascimento positiva. Me sentia fraca, impotente, incapaz e ao invés de lutar contra isso eu me resignei.

Isso só me entristeceu mais. Todas as vezes que eu pensava num parto normal “frank” ou numa cesárea eu ficava apavorada. Perdi noites de sono pensando nisso, lembrando de todos os partos e cesáreas com violência obstétrica que eu havia assistido nos estágios da faculdade. Eu precisava de apoio para bancar minha decisão, estava com medo de bancar sozinha diante da pressão dos familiares para que eu trilhasse o “caminho comum”, o mais fácil. Thiago, meu marido, sempre disse que respeitaria minha decisão independente de qual fosse. Mas eu precisava mais do que isso, precisava que ele apoiasse o projeto parto humanizado. Insisti para que ele assistisse o filme O Renascimento do Parto e ao final ele disse: vamos ter nossa filha em casa! Seria a melhor opção para a nossa família, nossa filha estaria protegida e eu também. Kalu, que me acompanhou durante toda essa trajetória de idas e vindas, ficou super alegre e eu procurei Míriam para planejar o parto domiciliar.

Entretanto Clara estava pélvica e não virou apesar de 2 tentativas de versão cefálica externa, acupuntura, moxabustão, posições de yoga e todas as mandingas existentes terem sido feitas por mim. Parto pélvico é um tabu obstétrico e para banca-lo eu me muni de muita informação e empoderamento, mas sempre soube que caso algo saísse errado ou se Clara tivesse algum problema mesmo que não fosse causado pela via de parto, a sociedade não me perdoaria. Foi difícil bancar essa decisão e havia apenas um único lugar onde eu poderia ter minha filha com segurança: a Maternidade Sofia Feldman. Lá seria o único lugar onde eu teria chance de parir Clara pélvica com respeito, cuidado e acompanhamento de equipe com experiência nesse tipo de parto. Fechei meus ouvidos para o resto do mundo, mudava de assunto para não ter que ouvir o que não queria e me deixar insegura. Trabalhei minha fé em mim, na minha força, na força da minha filha e segui amparada pelo meu marido, por Míriam, por Kalu e pelo grupo de gestantes atendidas por ela. Essa rede de apoio foi essencial para eu conseguir parir.

O PARTO
40 semanas e 2 dias. Após tantos medos vividos na gestação, após ter plena certeza de que não conseguiria parir por ter depressão e me sentir incapacitada, limitada, após vencer esses medos e tantos outros, lá estava eu apavorada pois Clara nem dava sinal de querer vir ao mundo. Eu estava muito cansada. Emocionalmente esgotada após 9 meses de intensos conflitos e mergulho profundo em mim; fisicamente esgotada pois havia engordado muito, estava pesada. Mas não queria abrir mão da barriga e tinha medo de não ser uma boa mãe para minha filha. É claro que isso influenciou sobremaneira no meu parto.

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Rezei pedindo ajuda à minha avó paterna, que quando viva pariu 11 bebês de forma natural, como me contou minha tia. Olhava para sua foto e pedia forças para esperar o tempo da minha Clara Luz. Decidi seguir seu conselho e usar o “remedinho” que ela usava para “virar neném” e tomei uma colher de óleo de rícino. Estava com dificuldades para ir ao banheiro, então o óleo seria de grande auxílio também.

Na madrugada de domingo para segunda, dia 26 de janeiro às 01:30, senti a primeira contração. Bem diferente do que havia lido, não senti dor na lombar ou pontadas. A dor era generalizada, como uma cólica intestinal só que mais intensa, o que me fez não acreditar que era início de trabalho de parto. Passei a noite observando o intervalo e às 07h, quando percebi que ele estava em 10 em 10 minutos liguei para a Míriam. Expliquei a situação e ela decidiu vir até minha casa para verificar como nós estávamos. Míriam constatou trabalho de parto latente e acompanhou os batimentos cardíacos da Clara, que estavam perfeitos. Mais tarde Kalu também chegou e ficamos juntas até aproximadamente 14h, quando as contrações perderam o ritmo.

Elas foram embora e eu passei o resto do dia e mais uma noite acordada sentindo a dor que estava se intensificando e ficou assim toda a terça-feira, dia 27. Minha irmã e minha mãe ligaram durante esse período, eu já havia passado das 40 semanas e a ansiedade e preocupação de todos era grande. Conversei com minha irmã e consegui disfarçar a voz durante as contrações. Thiago conversou com a minha mãe pois eu estava com muita dor, ele disse que eu estava no banho e ela acreditou. Combinamos de só avisar os familiares quando a Clara tivesse nascido, pois muitos deles não concordavam com nossas escolhas ou as temiam, o que poderia atrapalhar a evolução do trabalho de parto e assim foi feito. Thiago havia entrado de férias no dia 26 então eu podia conta com seu apoio 24h.
No fim da tarde de terça as contrações já estavam ritmadas novamente e Míriam retornou. Ela me acompanhou e me auxiliou nos métodos de alívio para dor. A ideia era ficar em casa o máximo de tempo possível, desde que com segurança, e chegar no hospital com dilatação avançada. Clara estava super bem, os batimentos dela estavam conforme esperado, entretanto após 2 noites sem dormir, minha tolerância à dor estava baixa e às 23h, após uma crise de descontrole emocional eu me entreguei à dor e comecei a acreditar que não daria conta. Com 4 cm de dilatação, eu implorei que fossemos para o hospital e assim foi feito. Kalu chegou no meu prédio quando já estávamos de saída e ela foi no carro comigo me fazendo massagem enquanto Thiago dirigia. O hospital Sofia Feldman fica a 18 quilômetros da minha casa e o trajeto penoso, mas menos do que eu imaginava. Cheguei ao hospital implorando analgesia, entretanto o plantonista (Dr Roberto) foi muito sensato e disse que não poderia administrá-la até que eu chegasse ao menos a 6 cm. Caso a analgesia fosse feita antes ela poderia atrapalhar a progressão do trabalho de parto, dentre outras complicações, e parto pélvico tem indicação de acontecer da maneira mais natural possível. Hoje sou muito grata a ele por essa decisão, mas na hora eu fiquei chateada, até tentei negociar mas ele foi firme.

O hospital estava cheio e demorou um tempinho para vagar um leito para mim. Finalmente conseguiram um leito e eu pude ir para o chuveiro, o que me aliviou muito a dor. Havia levado biquíni para usar no trabalho de parto, mas eu estava tão entregue ao processo que quis ficar nua. Não me importava que me vissem pelada no hospital, eu era apenas uma mulher parindo, pudor não fazia sentido em um momento tão intenso e profundo. No meu segundo momento de descontrole completo cheguei a dizer que se não me dessem analgesia eu iria embora para outro hospital, isso causou risos na equipe hahaha (eles não riram na minha frente se não eu os teria matado, me contaram depois! Rs). Eu pedi muito por analgesia e só consegui adiar esse momento porque Kalu, Míriam e Thiago me apoiaram total e completamente, me amparando, cuidando de mim e me lembrando a todo momento que eu poderia perder meu parto e não era isso que eu planejei, que eu era capaz e ia conseguir. Clara seguia firme dentro de mim, batimentos cardíacos perfeitos, minha filha é forte, eu já sabia disso!

Surgiu vaga na suíte de parto Dona Beja, a mais bela do Sofia. Kalu preparou o ambiente com perfume, iluminação e música especiais, quando a porta se abriu eu, mesmo morrendo de dor, me senti entrando no paraíso. Aquele espaço me pareceu um ninho onde eu me senti protegida, aconchegada, abraçada. Fiquei na banheira não sei por quanto tempo, as contrações estavam cada vez mais fortes. Os momentos entre elas eram de descanso, era como se elas nunca tivessem existido e a cada intervalo eu nutria a esperança de que elas não voltariam, mas (graças a Deus) elas voltavam e cada vez mais intensas e longas. Eu já estava na partolândia. Realmente o estado alterado de consciência no TP existe e nele vivi experiências valiosas.

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As 04 da manhã não aguentei e pedi novamente analgesia, foi feito exame de toque para verificar se ela poderia ser aplicada: 6 cm de dilatação, o TP estava evoluindo! TP longo, eu estava cansada e a analgesia foi essencial. Fizeram uma dose homeopática e eu consegui voltar para o quarto caminhando, Míriam ficou do meu lado o tempo todo e fez cardiotoco, tudo perfeito com a Clara. Dormi por 2 horas e acordei às 06h do dia 28/01, somente quando o efeito da analgesia passou.

As contrações já não tinham intervalos e eu desesperadamente pedi por mais uma dose. Me enrolaram dizendo que era troca de plantão (e era mesmo) e não havia anestesista disponível para aplicar, eu teria que esperar. Depois fiquei sabendo que já não era indicado analgesia naquele momento pois eu já me aproximava do expulsivo. Mais um exame de toque para verificar se Clara estava posicionada. Urrei de dor e gritei pedindo que tirassem a mão na hora! (vale lembrar que eu autorizei os exames de toque por 2 motivos: 1- para saber se já poderia receber analgesia; 2- em parto pélvico faz se necessário um acompanhamento mais cuidadoso da posição do bebê). Surgiu uma hipótese do pezinho da Clara estar mal posicionado, mas isso foi logo descartado pelo plantonista com experiência em parto pélvico.

Nesse momento eu estava imersa na dor mas ao mesmo tempo ainda a negava e só pensava em analgesia, mesmo já sentindo os puxos. Eu queria segurá-los para esperar a troca de plantão rs, mas eles são avassaladores. Estava de 4 e quando olhei pra baixo e vi mecônio caindo na cama pensei: o bumbum dela já está chegando aqui, preciso ser forte e trazer minha filha ao mundo! Deixei o medo pra trás, superei a dor, pedi ajuda para minha avó e toda a espiritualidade presente e me concentrei no meu corpo e na minha filha. Não sei dizer quanto tempo durou o expulsivo, mas sei que ao olhar pra baixo e ver a pelve da minha filha saindo de dentro de mim, depois as perninhas, o tórax, e finalmente a cabeça, foi inexplicável. Ela saiu sozinha, totalmente hands off, e ao cair na cama (a distância do meu corpo até a cama era de menos de 15 cm), seus olhos vivos e expressivos olharam ao redor e me olharam como se dissessem: é esse o mundo no qual vou viver? É você minha mamãe?



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Thiago, que estava na minha frente me dando força, repetia: você conseguiu, meu amor, você conseguiu! Puxou o lençol no qual ela estava, eu a peguei no colo e sentei. Que sensação MARAVILHOSA! Ela estava quentinha, cheirosa, nunca mais esquecerei aquele cheiro de Deus que ela tinha ao sair de mim. Thiago e eu nos olhamos, nos beijamos, nos amamos com o olhar. A força da natureza é soberana. Deus é perfeito e não foi atoa que delineou o nascimento dessa forma. A chuva de hormônios do amor uniu ainda mais Thiago e eu, ficamos ali cheirando nossa cria, sentindo o cordão umbilical que logo parou de pulsar, decorando cada pedacinho daquele rosto que tanto ansiávamos por conhecer. Clara nasceu saudável e perfeita, e foi recebida com amor e respeito por uma equipe de enfermeiros e médicos exemplares.

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Após o parto todo o cansaço se foi! Eu ansiava pela amamentação, queria muito nutrir minha filha e com ajuda da Miriam e da Kalu Clara logo pegou meu peito. Sorri e chorei de alegria! Thiago cortou o cordão e acompanhou os primeiros cuidados com Clara. Eu estava alegre, animada, só esperando Míriam suturar uma pequena laceração na parte externa da vagina para poder tomar um banho gostoso. Thiago também tomou banho e seguimos para a enfermaria do Sofia Feldman, onde ficamos muito bem instalados com mais 4 casais e seus bebês. Essa também foi uma experiência extremamente enriquecedora para nós como casal e como seres humanos. Ao olhar pra trás só tenho lembranças boas desses dias e do Sofia. Sou eternamente grata pelo que essa instituição proporcionou para mim e minha família. Gostaria imensamente que todos os hospitais oferecessem atendimento verdadeiramente humanizado, respeitoso e baseado em evidências. O milagre da vida merece esse cuidado.

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No momento de maior dor tudo o que se costuma querer é que ela pare, acabe, mas hoje vejo o quanto cada contração e cada um dos três dias de TP vividos foram importantes para mim. No meu TP coloquei muitas coisas pra fora, traumas, luto, dores de uma vida inteira; e ganhei tantas outras que me fizeram uma mulher mais forte e segura de mim e das minhas escolhas para minha família. Sou grata ao meu marido que teve força para assistir a minha dor e me dar forças para continuar, não me deixando desistir de viver essa jornada até o fim. Nossa união atingiu outro patamar após essa vivência juntos.

Gratidão também à Kalu e à Míriam, que se tornaram pessoas especiais pois nos acompanharam durante processo mais profundo e transformador que minha família viveu. E gratidão ao universo e à Deus por me dar tão valiosos presentes: minha filha e essa experiência. Além de ser outra mulher, hoje meu relacionamento conjugal também é outro, muito melhor. Meu marido me vê com outros olhos e essa caminhada nos uniu ainda mais, além de nos fortalecer em nossas convicções a respeito da educação que queremos para nossa filha.

Eu realmente desejo que mais e mais mulheres conheçam esse universo e possam escolher parir sem violência, sem medo, sem se tornar objeto, e trazer seus filhos ao mundo da mesma forma com que foram concebidos: com amor.

 

 

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