5
jan
2016

Ela transformou a doença em vida

 

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Juliana descobriu que tinha Esclerose Múltipla e pensou que nunca poderia ser mãe. Além de uma gestação maravilhosa teve um parto natural na água, sem lacerações, depois de 36 horas de Bolsa Rota.

por: Juliana Tristão, 33 anos, professora e mãe da Lara que nasceu no dia 05 de dezembro de 2015 em um parto natural marcado por muitas emoções.

O parto começa na cabeça.No grande dia o importante é deixar a natureza agir. Entretanto, a cabeça precisa ter sido sua companheira durante boa parte da gestação. Queremos compartilhar nossos desejos com o companheiro, com a família, amigos e profissionais da saúde que no lugar de aliados muitas vezes se tornam nossos primeiros obstáculos.

Nossa cabeça se confunde: seguir os nossos desejos ou se entregar aos conselhos carregados de medos, insegurança e orientações muitas vezes equivocadas daqueles que nos cercam? A escolha é toda nossa!

Eu decidi me entregar na primeira opção: corri atrás dos meus desejos e aprendi a contornar aquilo que poderia não ser bom para minha gestação. Ninguém falou que seria fácil. Mas a longa caminhada também faz parte do nosso empoderamento. Eu optei por acreditar, confiar no meu corpo e parir!

Cada um passará pelos seus próprios desafios. O meu desafio começou a cerca de 1 ano antes do parto quando fui diagnosticada com Esclerose Múltipla por meio de um forte surto após uma gravidez anembrionária o que na ocasião me levou a acreditar que não poderia mais ser mãe.

Pura falta de conhecimento sobre o assunto. Aliás, informação é tudo. É justamente na ignorância dos assuntos sobre o parto que vamos cravando a sepultura dos nossos desejos. Confesso que acho todo esse sistema pela busca da informação muito cruel com nós mulheres. São muitas informações soltas pela internet para serem filtradas e opiniões muitas das vezes divergentes vindo de profissionais renomados da saúde.

Eu me senti um pouco perdida, tendo que fazer escolhas entre facções (risos), sistema X ou Y, sendo que a única coisa que queria era parir de forma saudável e marcante para o meu bebê e para mim. Hoje vejo o parto quase como se fosse uma religião. Cada um tem a sua e devemos respeitar a escolha de cada um.

Quando engravidei achei que teria que optar por ter um parto normal ou cesárea. Acompanhei minha gestação convivendo com as perguntas: que dia vai nascer? Vai ser normal ou cesárea? Percebi que as corajosas optavam pela tentativa do parto normal. Mas esta coragem era desfeita ao longo da gestação ou mesmo no dia do parto por uma orientação equivocada do médico. Quem é que vai discutir com o médico, não é mesmo? Diante de que qualquer probleminha por menor que fosse  o médico acabava indicando uma cesariana.

Tomei conhecimento de pouquíssimas pessoas do meu convívio que tinham tido parto normal. Raras pessoas que conseguiram na banheira ou em casa. Escutei pela primeira vez sobre “parto humanizado” no trabalho. Algumas colegas se referiam a ela como “mulher das cavernas”.

Achei engraçado a impressão que isso causava nas pessoas. Aquilo, ao contrário, me deixou mais intrigada e curiosa em saber por onde caminhou a cabeça e os desejos destas mães por escolher um parto assim tão diferente na nossa sociedade.

Intrigava-me também como minha avó tinha sido capaz de ter 10 partos em casa e hoje em dia um parto domiciliar se tornou sinônimo de incapacidade e irresponsabilidade. É claro que a tecnologia contribui muito para salvar vidas, mas deve ser usada quando a mesma está em risco. O poder de parir deixou de ser da mulher e passou a ser de responsabilidade de médicos que passaram com o tempo a extrapolar no seu papel nesta história. Tiraram a mulher de cena. Sua confiança, sua intimidade, sua naturalidade. Hoje eu sei que parir em casa não é um retorno ao tempo da minha avó, que não tinha escolhas, mas fazer uso das tecnologias humanas, nosso corpo e hormônios, assessorada por profissionais com estudos e treinamentos para salvar vidas, baseados em evidência científica. O parto não é a qualquer custo. Tanto é que meu parto foi na maternidade.

Me identifiquei com o parto humanizado.Me identifiquei. Não queria ser radical, aliás, este nunca foi o meu estilo. Percebi que não se tratava apenas de sonho e romantismo, mas de uma escolha consciente. Eu também queria um parto humanizado.

Fui atrás da informação. Muitas pessoas acham que humanização é parto natural ou como disseram recentemente animalizar o nascimento (risos). Mas humanizar é basear-se em evidências científicas. Desta forma a cesárea não é descartada: a cirurgia é indicada quando o risco do parto se tona maior. Mas porque me entregar a uma cesárea desnecessária como tanto tenho acompanhado com as mulheres do meu convívio? A luta pelo fortalecimento deste ideal se intensificava.

Acompanhei alucinadamente o congresso online Nascer Melhor (Movimento Nascer Melhor) e a cada palestra assistida eu me alimentava de uma confiança e certeza dos meus desejos e escolha.

Minha cabeça estava se tornando minha principal aliada. Foi como se um novo mundo de possibilidades se abrisse aos meus olhos. Comecei a fazer parte de grupos de apoio como o Ishtar e a Espiral Materna. Grupos de whatsapp, principalmente das gestantes que a Kalu acompanha, que reunia mulheres com este mesmo propósito. Via vídeos de parto e lia relatos dos mais diversos. Contratei uma doula.

Próxima etapa: passar todo este ideal para o meu marido porque eu precisava do apoio dele. Dos meus desafios acredito que este foi o menor, pois fui abençoada com um homem maravilhoso que nos intervalos de descanso do trabalho se dispunha a fazer o sonho que agora era nosso crescer e ganhar força. Era importante que as decisões agora fossem tomadas por nos dois.

Desde o princípio fazia o meu pré-natal em um hospital privado próximo a Belo Horizonte, reconhecido pela excelente infraestrutura, quartos espaçosos e confortáveis e um alto índice de cesárea (só um detalhe). Percebi que este cenário de conforto e tecnologia trazia certa segurança para meus familiares, mas não era bem o que eu estava buscando e no fundo eu sabia que aquelas consultas não vingariam até o final. Estava apenas ganhando tempo com as minhas ideias de parto.

Com o apoio da minha cabeça e do meu marido me senti fortalecida por fazer novas escolhas. Não era mais afetada por opiniões desestimulantes de amigos, família, médicos como meu neurologista (sim! Ele tentou me desanimar!).

Escolhi o hospital Sofia Feldman (100% SUS) para fazer o restante do meu pré-natal acompanhada por uma enfermeira obstetra (já com 25 semanas de gestação). Meu marido, grande companheiro, de tão confiante sugeriu-me o parto domiciliar. Me surpreendi e me apaixonei mais ainda pelo pai da minha filha e me entreguei a esta ideia.

No início o hospital negou o parto domiciliar por conta da Esclerose Múltipla. Mas após uma conversa esclarecedora com os responsáveis do hospital e da aparente estabilidade da doença conseguimos a liberação. Comecei a frequentar o núcleo de práticas integrativas oferecidas pelo hospital (auriculoterapia, acupuntura, escalda pés, ventosa, moxa) e ainda em bastante atividade no meu trabalho tentava dedicar o tempo livre que tinha para me preparar para o momento do parto, o grande dia.

A tranquilidade e as atitudes tomadas no dia do parto só se tornaram possíveis porque já estavam fortalecidas pela minha cabeça um tempo antes. Para quem deseja refletir sobre o parto e não sabe por onde começar, foi assim que a minha história se desenrolou. Segue agora o relato do dia do parto.

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O dia do parto…

Sexta feira, dia 04 de dezembro de 2015. Dia de frequentar pela manhã o centro de terapias integrativas do hospital público Sofia Feldman e consultar no período da tarde com a enfermeira obstetra do hospital, Solange (Sol), que agora era semanalmente. Estava já com 38 semanas e 2 dias. Primeira gestação, bebê cefálico, exames em dia e normais, gestação muito tranquila. Tinha decidido pelo parto domiciliar. Estava conhecendo a equipe de parto, finalizando o plano de parto e providenciando o cenário para o grande dia: banheira, velas, flores, música e muito amor.

Acreditava que os primeiros sinais de Lara viriam a partir da 40ª semana de gestação. Parecia ser uma manhã qualquer. No entanto antes de sair de casa na ida para o hospital, por volta das 8 horas, senti um pequeno molhado involuntário e logo corri para o banheiro na crença de se tratar apenas de um xixi. Me tranquilizei. Fui para o carro. O hospital ficava a 10 minutinhos. E pouco tempo após dar a partida no carro voltei a senti um pouco mais do molhado. Estranhei. Olhei para o Gustavo, meu marido que se despedia de mim na porta e comentei com ele. Ele me respondeu: nesta situação e sozinha indo para o hospital… você não para quieta mesmo! Eu então sorri e respondi: fica tranquilo, qualquer coisa já estarei no hospital.

A sessão de terapias durou a manhã inteira. Fiz escalda pés, florais homeopatia, auriculoterapia, acupuntura, ventosa e moxa. Durante toda a manhã percebi mais duas saídas discretas involuntárias de um líquido incolor. Estava extremamente relaxada e pela primeira vez me veio um sinal de preocupação: será que minha bolsa estorou mesmo? O que vou fazer? Manter a tranquilidade! Sabia que bolsa rompida não era sinal de estar no hospital imediatamente. Tinha consulta no período da tarde e verificaria melhor a situação. Almocei por perto.

Resolvi não ligar para o Gustavo que estava trabalhando, mas resolvi mandar uma mensagem para minha doula Kalu sobre o ocorrido. Poderia ser um alarme falso ou uma ruptura alta da bolsa por isso o líquido saía aos poucos. Ela me sugeriu comunicar com  a enfermeira e fazer um exame, que tem disponível no hospital, para confirmar se a saída de liquido era de fato da bolsa.

As 13:20 horas fui para a consulta. O consultório estava cheio e consegui ser atendida somente as 16 horas. Enquanto isso eu pedi a secretária um pano para eu coletar o líquido que escorria de tempos em tempos e lia um livro para me distrair. Ao entrar no consultório mostrei à enfermeira Sol o pano encharcado com o líquido e mesmo antes de constatar por meio de exames ela concluiu: sua bolsa rompeu, tenho certeza! Ruptura alta de bolsa. Eu perguntei: e agora quais serão os procedimentos a seguir? Posso ir para minha casa ter o meu parto domiciliar? Ela respondeu: como já tem mais de 8 horas de bolsa rota o protocolo do hospital é a sua internação imediata para administrar antibiótico e induzir o parto na maternidade. Ela fez o exame de toque e constatou 2 cm de dilatação.

Meu sonho de parto foi por água abaixo, literalmente. Gostaria de tentar o parto domiciliar e não sendo possível gostaria de tentar o parto na casa de parto. Não imaginava ir de imediato para a maternidade e me submeter de cara a uma indução sem a chance de sentir espontaneamente o meu trabalho de parto começar.

Para piorar a situação havia decidido não avisar a minha família sobre a minha ideia de parto. Poderiam se opor ou mesmo ficariam nervosos, inseguros podendo prejudicar a evolução do meu trabalho de parto.

A ideia inicial era avisa-los próximo ao nascimento da Lara. Mas justo naquela sexta feira era comemoração do aniversário da minha mãe e como não aparecer no aniversário dela estando com mais de 38 semanas de gestação? Seria no mínimo muito suspeito. Poderia ser o fim dos meus planos, mas não, eu tentaria até o último momento salvar esta situação.

Insisti com a enfermeira que não poderia ser internada naquele momento. Ela percebeu que o exame de estreptococos não havia sido realizado. E este era mais um motivo para que o antibiótico fosse administrado. Eu queria o antibiótico, mas não queria ser internada. E precisava dar uma passada na casa da minha mãe para que os familiares não suspeitassem o que estava acontecendo. Fiz uma cardiotocografia e constatamos que a Lara estava bem.

Conversei com a enfermeira responsável do hospital e assim fui liberada para preparar minhas malas e dar uma passada no aniversário da minha mãe. Ela me orientou que para acionar a equipe domiciliar eu precisava entrar em trabalho de parto até as 20 horas. Caso contrário deveria de ser internada para administrar o antibiótico e fazer a indução até as 02 horas da manhã.

Sai eufórica do hospital. Sentia que Lara estava próxima de vir ao mundo. Não sabia muito bem como seria, mas sempre com boas expectativas de que o melhor seria feito. Liguei para o Gustavo, expliquei a situação, disse a ele para não se preocupar e se preparar porque a nossa Lara chegaria nas próximas horas ou dias.

Liguei para a doula Kalu e expliquei a situação em que me encontrava. Já era próximo das 18:00 horas. Passei em um sacolão e comprei canela e gengibre para fazer um chá e tentar adiantar o trabalho de parto. Uma das enfermeiras do parto domiciliar, Thaty, me sugeriu sobre o chá. Lembrei-me das rosas que queria comprar. Idealizava um parto na banheira com velas e rosas vermelhas e brancas. Consegui o telefone de uma floricultura e liguei pedindo para não fecharem porque já estava a caminho. Comprei as rosas e fui para casa. Fiz o chá e ia tomando enquanto arrumava a malinha da maternidade e ajeitava os últimos preparativos antes de ir para o aniversário da minha mãe.

Gustavo chegou em casa e me ajudou a finalizar a mala. A ideia da indução do parto e a ida para a maternidade havia tirado um pouco o brilho dos nossos planos (temíamos que poderíamos estar próximo de uma cesárea caso o trabalho de parto não evoluísse mesmo após a indução) mas eu insistia para não desistirmos e que esse momento ainda sim seria único e poderia ser muito lindo. Pedi a ele para não esquecer de colocar a sunga na mala e assim ele o fez e fomos para o aniversário da minha mãe.

O tempo havia mudado e ameaçava cair forte chuva. Chegamos e todos os familiares nos receberam com grande carinho e suposições de quando a Lara chegaria. Mal sabiam eles que o momento estava próximo. Começou uma forte chuva e em meio a conversas com minha avó comi feijão tropeiro com couve e bolo de chocolate.

Gustavo chamou minha atenção sobre o parto que estava próximo, mas hoje brinco dizendo que foi o santo feijão da mamãe que limpou o meu intestino antes do nascimento da Lara.

Voltamos para casa as 00:30 e assim começava uma das noites mais longas da minha vida. O parto domiciliar com a equipe do hospital já estava descartado. Liguei para a enfermeira Thaty da equipe domiciliar e ela confirmou que a orientação era eu ir para o hospital tomar o antibiótico e fazer a indução. Sugeriu que eu dormisse e fosse para o hospital pela manhã. Eu não queria a indução, mas sabia que precisava do antibiótico pelo risco de infecção.

As horas se passavam e nenhum sinal. Comecei a rezar e pedir a Deus para que meu trabalho de parto pudesse começar e… nada. Pensei em não ir para o hospital. Mas eu precisava do antibiótico e seria necessário muita discussão no hospital para que eu não fosse internada. Os minutos se passavam e nada mudava. Gustavo dormia. Levantei e preparei mais chá de canela com gengibre e… nada. Até que por volta das 02 horas comecei a sentir de longe um ligeiro incômodo no abdômen. Seriam as contrações começando? Ainda estavam muito fracas, mas percebi que apareciam de 30 em 30 min. Empolguei. Tomei mais chá e comecei a registrar o tempo em que apareciam. Começaram a vir em intervalos mais curtos mas ainda irregulares, 10 min, 8 min, 9 min e eu percebi a saída de uma pequena gosma transparente com um pouco de sangue.

As contrações eram leves e duravam 5, 10, 15 segundos. As 6:30 da manhã liguei para a enfermeira Thaty para dar a notícia. Mas ela disse que em nada mudaria a conduta porque o trabalho de parto provavelmente ainda estava em uma fase muito latente. Confesso que esperava outro posicionamento. Liguei para a doula Kalu e ela se empolgou.

 

Era o primeiro sábado do mês e Kalu era responsável por um encontro de gestante chamado Espiral Materna. O tema do dia era sobre “a dor do parto” e era o último encontro do ano. Kalu passaria na Espiral Materna e de lá iria para o hospital me acompanhar. Por volta das 8 horas eu e Gustavo decidimos ir para o hospital receber o antibiótico e a indução.

Chegamos ao hospital próximo das 9 horas. O hospital estava lotado. Pareciam que todas as mulheres resolveram ganhar o bebê aquele dia. Passei pela triagem e logo após me colocaram no banco de espera para receber os procedimentos. Enquanto isso as contrações aumentavam a frequência e a intensidade da dor. Gustavo me ajudava a registrar o tempo das contrações. Elas agora vinham de 4 em 4 min e duravam 30-40 s. Fui ao banheiro e reparei a saída de mais uma gosma branca com pouco de sangue. Próximo das 11 horas fui atendida. Recebi o antibiótico e constataram 5 cm de dilatação!

Tudo o que eu desejava para aquele momento acontecia e soou como música aos meus ouvidos: estava em trabalho de parto e não era mais necessário fazer a indução. Fui encaminhada para a sala de pré-parto.

A sala de pré-parto evidentemente estava lotada. Do lado de fora, eu e Gustavo aguardávamos surgir uma vaga enquanto as contrações evoluíam cada vez mais intensas. E uma vez na sala de pré-parto aguardaríamos surgir uma vaga em um quarto onde poderia ser atendida com bola, chuveiro e banheira para o alívio da dor. Tentei ligar para Kalu, mas ela não me respondia. Imaginei que estivesse ainda ocupada na reunião. Entramos na sala de pré-parto. Vi Gustavo gentilmente entregando o meu plano de parto para as enfermeiras do local. Não conseguia mais conversar durante as contrações. A dor era forte e eu contava os segundos e mentalizava tranquilidade para espera-la passar. Fiquei em uma sala junto com várias outras gestantes em trabalho de parto, separadas em macas individualizadas. Sempre acompanhada pelo Gustavo. Cada mulher estava em um estágio do trabalho de parto e de tempos em tempos gemidos eram ouvidos da dor que sentiam, da ajuda que imploravam.

Minhas dores se intensificavam. Era horário do almoço, mas a fome passava longe neste momento para mim e Gustavo. Como a dor se intensificava cada vez mais cheguei a pensar que não conseguiria entrar em um quarto e era ali mesmo que a Lara nasceria. Pedi ao Gustavo para tentar providenciar um chuveiro e uma bola. Havia um banheirinho das enfermeiras daquela sala de pré-parto. E lá tinha um chuveiro. Elas me ofereceram e eu aceitei. Arranquei a roupa do hospital que vestia e me entreguei naquela água quente que descia sobre o meu corpo. Consegui um certo alívio. Me arranjaram uma bola e sobre ela também me aliviei.

Eu sabia que a dor era inevitável mas o sofrimento é opcional. Eu tentava aguentar firme e contava os segundos para as contrações irem embora. Eram como ondas no mar. Começavam de leve, vinham quebrando e iam embora. Tudo o que eu mais queria era 30 minutos de descanso das contrações, mas a natureza não é assim. Então eu tinha que aguentar.  Percebi que mais sangue ia sendo eliminado. Não se fazia mais toques, não fazia mais ideia da dilatação que eu já tinha chegado. Só sabia que tudo evoluía. E a única coisa que desejava era o nascimento da Lara.

De repente a história começou a ganhar outro rumo: minha doula Kalu chegou! Eu toda molhada e entregue naquele pequeno espaço de banheiro e ela sem muita cerimônia já foi logo me pegando pelos braços e me envolvendo com o seu carinho e pelo calor do seu abraço durante uma contração. Eu perguntei no intervalo: onde você estava? Estou precisando tanto de você… Quando contratei a Kalu, que além de doula é fotógrafa, queria muito o registro do meu parto porque sempre fui alucinada com fotos e vídeos. Mas naquele momento eu só queria o alívio da minha dor e o nascimento da Lara. Falei olhando para a Kalu que não precisava mais das fotos, pois só queria a presença dela e a Lara nos meus braços.

Outra contração e o conforto da presença da Kalu agora me fez gritar mais e mais sem cerimônias. Ela massageava minha lombar. Eu apoiava o peso do meu corpo sobre os seus ombros. Gritava. Gemia. Segurava firme nos seus cabelos encaracolados. Foram umas três contrações ainda naquele banheiro apertado. O quarto Maria Nazareth foi liberado. Esperamos pelo fim da contração e peguei fôlego para me direcionar o mais rápido possível para o quarto, acompanhada agora pela Kalu e Gustavo.

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O quarto era amplo. Tinha uma cama, banheira e um banheiro espaçoso. A contração voltou. Fui direto para o banheiro e enquanto apoiava o peso do meu corpo sobre os ombros de Kalu me contorcia esperando a contração acabar. Ela sugeriu o banquinho para fazer a posição de córcoras. Mas não me senti confortável. Preferia ficar de pé abraçando-a e apoiando o meu corpo sobre os seus ombros. Disse a ela que doía muito e queria a analgesia. Ela me respondeu dizendo que não adiantava mais e que agora teria que ir até o fim. Eu precisava continuar. A dor teria um fim e logo logo estaria com a Lara nos meus braços.

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Enquanto isso Gustavo e a enfermeira Joana que me acompanharia neste momento enchiam a banheira. No intervalo da minha contração Kalu também os ajudava. Via do banheiro eles espalhando sobre a água da banheira as rosas brancas e vermelhas que havia comprado. Eles avaliavam a temperatura da água. A contração voltou. Kalu me ajudou a caminhar em direção a banheira. Antes de chegar lá parei para esperar a contração. Disse a ela que queria fazer xixi. E assim o fiz no chão. Ela achou que seria a bolsa que tinha se rompido por vez. Mas não. O Gustavo foi posicionando as velas próximo à banheira. Colocou as três velas distantes entre si e pedi para junta-las pois era assim que havia imaginado rsrs.

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Vi que faltava outros detalhes que tinha preparado mas não conseguiria naquele momento orientar o Gustavo sobre isso. Muito menos ele se atentaria a estes detalhes agora. Fecharam a cortina o que fez com que a sala desse uma escurecida. Devia de ser por volta das 15:30 horas. No intervalo de uma contração, entrei na água e imediatamente me veio uma sensação de relaxamento. A banheira foi muito bom para mim. Queria permanecer nessa sensação por um bom tempo, mas sabia que logo logo as contrações voltariam. Kalu providenciava uma música ambiente. Outra contração. Eu gritava. Gemia. Berrava. Não imaginei que neste momento eu agiria assim. Mas o controle já não era mais meu e sim do meu corpo. A dor era muito forte. Kalu do meu lado e eu a abraçava e agarrava os seus cabelos.

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Ela sugeriu a entrada do Gustavo na banheira e o orientou a me abraçar e apoiar por detrás. Outra contração e agora eram as mãos do Gustavo que eu segurava aos gritos da dor. A enfermeira Joana de tempos em tempos acompanhava os batimentos cardíacos de Lara e constatava que tudo caminhava bem.

Kalu acompanhava agora mais distante enquanto registrava o momento por fotos. Chegou o momento da força. De pernas abertas apoiadas em uma das extremidades da banheira a contração vinha e com ela a minha força para fazer a Lara chegar. Entre as contrações Kalu e Joana diziam já ser possível ver o sinal do cabelinho e da cabecinha da Lara chegando. Outra contração e mais força. Joana confere os batimentos cardíacos e verifica que tudo esta normal. Sugerem que eu sinta com os dedos a cabecinha surgindo. Tentei mas ainda era pouco confortável. Alegria! Estávamos chegando a reta final. Outra contração e mais força. Joana me sugere pegar o fôlego e fazer uma única força em uma só vez. Outra contração e mais força. Não sei bem o tempo que isso durou. E o tal círculo de fogo? Será que existe mesmo? Ele deveria estar próximo, pensei. E em meio a outras contrações senti uma sensação de queima quando fazia a força. Era ele, a chegada da Lara estava próxima. Disseram que a cabecinha havia saído e agora faltava o corpinho.

Que felicidade! Joana se posicionou e perguntou se queria que ela recebesse a Lara ou se eu mesma queria pegá-la. Não hesitei em dizer que eu mesma queria recebe-la em meus braços. Perguntei se eu fazia a força ou esperava a próxima contração para a saída do corpinho. Ela sugeriu esperar a próxima contração e assim o fiz.

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O momento mais aguardado por mim havia chegado. Faltava muito pouco para conhecer a minha filha. Nesta tão esperada contração posicionei as minhas mãos em sua direção e aguardei a natureza divina de mãe e filha fazendo com que naturalmente Lara chegasse ao mundo.

 

Ela chegou linda e escondida por detrás das pétalas de rosas, me olhou no primeiro instante de vida fora do meu ventre. E os meus olhos não saíam da mesma direção: era você meu amor tudo que eu mais queria naquele momento. Ficamos alguns segundos nos conhecendo, separadas ainda pelo mundo ar e o mundo água. Ela calmamente reconhecia o novo ambiente onde estava.

Gustavo chorando me ajudou a apoia-la ainda imersa dentro da água. E eu carinhosamente dava as boas vindas: minha filha, eu te amo. Esperei tanto por você.

Ainda dentro da água, aos poucos fui apresentando a ela o ar. Ela chorou intensamente mostrando toda sua vitalidade e anunciando aos quatro cantos daquele quarto: cheguei! Ainda ligada ao meu corpo trouxe ela para o meu colo. E abraçada por mim e pelo papai nos lambuzamos com seu vérnix e paramos no tempo nos entregando para viver e guardar eternamente aquele momento.

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Aquela cena se eternizou em nossos corações. Apoiada em minhas pernas ainda ficamos namorando-a por um tempo. Aquecemos sua cabecinha com um pano para que não sentisse frio. Era o momento do corte do cordão umbilical. Queria que esta separação fosse feita pelo pai e ele assim também desejava.

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Me levantei da banheira e com ela nos meus braços me direcionei para a cama. Fiz força para facilitar a expulsão da placenta e com o auxílio de Joana ela foi removida do meu corpo. Joana nos mostrou a placenta e prosseguiu orientando o Gustavo para que fosse feito o corte do cordão umbilical. A placenta foi guardada para que pudéssemos levar para casa e plantar uma árvore que fosse nutrida por ela.

Enquanto isso Lara estava no contato pele a pele no meu colo e iniciava o reconhecimento instintivo de sua nova fonte de alimentação: o meio seio. Naquele momento sublime ela arriscava algumas sucções e eu a olhava encantada com aquele pequeno ser. Curtimos por um bom tempo o momento de mãe e filha que ali nascia.

As medidas iniciais de Lara foram registradas: 2,550 Kg e 43 cm. Avaliaram se seria necessário fazer alguns pontos no períneo, mas não houve laceração. Pensei: sem laceração.
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Que benção! Imaginava que alguns pontos eu levaria. Tomei conhecimento já no fim da gestação de massagens no períneo que tinham como objetivo evitar esta laceração. Mas já não havia mais tempo para me preparar para isso. E ainda mais uma benção estava por vir: índice de Apgar 10 que soa como música aos ouvidos de qualquer mãe. Me levantei e fui tomar aquele banho da renovação. O Gustavo foi até a nossa residência levar a placenta para ser congelada e buscar um par de roupas para que pudéssemos passar nossa primeira noite juntos.

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Neste intervalo de tempo o jantar havia chegado e enquanto eu amamentava Lara, minha querida doula Kalu me alimentava carinhosamente com a deliciosa canja de galinha do hospital. Conversamos um pouco enquanto o Gustavo chegava. Juntamos as coisas e fomos andando a caminho do quarto onde passaríamos a noite.

A noite mais uma vez seria longa. Agora não mais pela imprevisibilidade do que estava por vir. Mas agora pelo estado de êxtase na certeza de termos passado pelo momento mais importante de nossas vidas. Me entreguei. Deixei a natureza agir.
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Foi uma experiência única. A dor foi forte, mas sofrimento não existiu. Banheira, flores, velas e música. Meu marido. Minha doula. Não houve indução e nem analgesia. Sem intervenções e com muito respeito. Ela veio linda em minhas mãos, com muito vérnix e com muita vitalidade. Nota Apgar 10. Sem laceração. Cordão umbilical cortado pelo pai. Contato pele a pele e a busca pelo meio seio. Foi do jeito que tinha que ser.

E eu me senti satisfeita e realizada. Agradecida a Deus por me permitir viver esta experiência única do ser mulher.

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