13
abr
2015

Enfermeiras Obstetras e Obstetrizes em partos de baixo risco

Enfermeira Obstetra Miriam Rego, nossa parteira com doutorado, entregando um bebê nascido em casa

Enfermeira Obstetra Miriam Rego, nossa parteira com doutorado, entregando um bebê nascido em casa

Se existe uma grande razão para que os índices de partos normais no Brasil serem tão ruins está na escolha do médico como responsável pela assistência a toda a parturiente, seja no pré-natal e no acompanhamento do trabalho de parto.

As melhores equipes de partos humanizados colocam a Enfermeira Obstetra (ou obstetriz) como a responsável pelo atendimento do pré natal e assistência ao parto da gestante de baixo risco, independentemente do local do parto (domiciliar, em casa de parto ou hospitalar). Médicos ficam na retaguarda, atuando quando os recursos cabíveis à enfermeiras cessaram.

Aqui em Belo Horizonte os partos domiciliares são atendidos, geralmente, por duas enfermeiras, munidas de aparatos para os primeiros socorros de mãe e bebê, como cilindro de oxigênio, medicamentos, fios para suturas de laceração, equipamento para ajudar na ventilação do bebê e entre outros.

Médicos e pediatras têm uma excelente função para resolverem problemas. Como destaca Miriam Rego ” Não posso deixar de ressaltar o quanto é importante para as mulheres e para as enfermeiras obstetras e obstetrizes contar com a retaguarda de serviços médicos de qualidade quando há necessidade! Médicos tecnicamente competentes, com filosofia humanística e que saibam trabalhar em equipe são fundamentais para uma assistência obstétrica qualificada”.

A princípio eles precisam estar a disposição e não necessariamente atuando nos partos. Mas como destacou Miriam: São fundamentais quando necessários e precisam saber atuar em equipe, baseado em evidências, sob premissas humanizadas.

Médicos e pediatras são treinados para intervirem em situações de emergência. Mas partos, em sua maioria, são eventos fisiológicos e naturais que precisam de conhecimento fisiológico (acompanhamento dos batimentos cardíacos fetais, da evolução do trabalho de parto) e emocional acompanhado de uma boa dose de paciência e visão holística da parturiente, muito mais do que de intervenções.

Partos Domiciliares ou em casa de parto acontecem quando a fisiologia apresenta-se de maneira totalmente natural. O primeiro plano é que o trabalho de parto aconteça no domicílio quando atende aos critérios específicos que cada equipe define. Por exemplo, aqui em Belo Horizonte, as enfermeiras não fazem partos domiciliares de bebês pélvicos (sentado), transferem imediatamente a parturiente se há a presença de mecônio (no início do trabalho de parto), quando há sangramentos, alterações cardíacas ou de pressão. Existem as equipes de Parto Domiciliar privadas e agora também pelo SUS( do Hospital Sofia Feldman). Também se transferem de casa para o Hospital gestantes que desejam anestesia ou estão em longo trabalho de parto sem evolução. O mais interessante é que grande parte do parto são realizados sem exames de toque. Leia aqui o texto de Miriam Rego que ela conta a experiência da equipe em não realizar toque nos partos.

O fato é que problemas são raros, estatisticamente falando. Ainda mais quando a gestante é de baixo risco, fez um bom prenatal e sobretudo acredita na fisiologia. Vale ressaltar que o parto normal e natural são seguros, mas em todos os cantos do planeta a cada mil nascimentos, um ou 2 bebês não conseguem sobreviver, sem uma explicação fechada. As cesarianas não reduzem estes índices, uma vez que a cirurgia triplica o número de mortes maternas e neonatais.

Mãos de Enfermeiras

Mãos de Enfermeira

Grande parte das mulheres que são submetidas a uma cesariana desnecessária poderia ter vivenciado um nascimento natural, seja ele em casa, casa de parto ou hospital. O que impede que isso aconteça é a ignorância que temos diante do evento nascimento e a pressão do sistema obstétrico baseado em um modelo tecnocrata. Basta olhar as estastíticas para concluir que o mais seguro é o parto normal. Mas essa escolha não é tão fácil uma vez que muitas vezes ela é feita por nós por aqueles que apenas sabem fazer cirurgias.

Isso significa que o médico em sua formação é treinado para fazer cirurgias (ou cesáreas). Para serem parteiros terão que desconstruir grande parte de seus conhecimentos e hierrarquia de poder para estarem dispostos a entregarem o protagonismo para a mulher em trabalho de parto. Por isso existem exemplares desses, em todo país, que mal enchem os dedos de uma mão.

O atendimento de gestantes de baixo risco, seja ele em casa, casa de parto ou Hospital, público ou privado, deveria estar na mão de enfermeiras obstetras ou obstetrizes. Elas sim conhecem e sabem de fisiologia. Elas sabem respeitar, intervir com evidência científica e recursos humanos  para proporcionar a mulher um parto mais natural possível.

Um país que não valoriza a formação de obstetrizes mostra que o modelo vigente de atendimento obstétricos é medicamentoso e cirúrgico. Não adianta Ministério da Saúde fazer campanha para reduzir as taxas de cesariana, nem os planos de saúde darem incentivos para partos normais na rede privada. A formação médica não ensina o que é um parto natural e nem se permite isso dentro deste modelo. E se sabe que em locais com ausência de assitência ou com intervenção demasiada, o índice de mortalidade materna e neonatal é grande.

Se o Brasil quer reduzir estas taxas de morte materna e de bebês precisa investir na formação de profissionais humanizados e aos poucos, permitir e incentivar que o atendimento obstétrico de gestante de baixo risco seja feito não por médicos, mas por enfermeiras.  Certamente teríamos índices de mortalidade bem menores, queixas de violência institucional zero e mulheres, como eu, satisfeitas com seus partos, com seus corpos, com sua natureza e feminilidade.

E se Odent disse que só mudaremos o mundo se mudarmos o modo de nascer. Só mudaremos nosso país quando abrirmos mão dos interesses econômicos de uma categoria para valorizar o que importante para a humanidade. E nascer e morrer, talvez seja o maior reflexo da qualidade de uma nação.

Para nascer melhor só quando as enfermeiras obstetras e obstetrizes estiverem na linha de frente, com formações humanistas e baseadas em evidência, prestando atendimento de qualidade para mais de 70% das gestantes de baixo risco, sem descartar a importância na retaguarda de médicos e pediatras que saibam trabalhar em equipe sob uma visão humanista, baseado em evidência e com ampla competência em intervenções quando necessárias.
Veja esse animação o que mostra o trabalho destas profissionais.

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