28
abr
2015

Lactância Selvagem

Amamentar é entrega, não saber. É doar-se. Dizem que o leite é o sangue branco que corre nas tetas para alimentar as crias. A continuidade do crescimento necessário, exclusivo, preferencialmente até seis meses, mas por tanto tempo que a mãe e bebê estiverem satisfeitos.

E precisa ser comum: temos que apagar a relação de pornografia e amamentação. Há de se ter mulheres amamentando em todos os lugares e fotos estampadas de bebês e crianças de todas as idades para reconstruirmos a normalidade deste processo fisiológico.

Meu filho foi amamentado até seus 4 anos e seu desmame natural partiu dele.

Miguel com 4 anos. Foto Paula Lyn

Miguel com 4 anos. Foto Paula Lyn

Uma mulher amamentando uma criança é uma mulher vivenciando uma relação de sexualidade positiva com seu corpo. Seu corpo transforma sangue em alimento e nutre a cria. Seus seios agora exercem a função para a qual foram feitos, que fazem com que sejamos chamadas de mamíferas.

Clarisse gravida de 36 semanas amamentando Bernardo de 2 anos

Clarisse gravida de 36 semanas amamentando Bernardo de 2 anos

Assim como nossa vagina que costuma receber o falo, agora se abre para trazer uma nova vida, pelas vias que entrou.
Por serem vivências sexuais não significa que são pornográficas. Esses são os olhos de uma sociedade doente cheia de entraves sexuais. Entraves que talvez, muitos deles, venham destes dois momentos maus vividos.

Por muito tempo nós mulheres aceitamos o patriarcado dos partos medicamentosos, cheios de intervenções dos homens, para que pudéssemos acreditar que eles nos salvaram. Assim como por muito tempo acreditamos que eles é que podiam ou não nos dá prazer.

Por muito tempo ficamos em cubículos a esconder nossos seios ou entregando a cria para uma ama de leite porque amamentar era considerado um ato menor, animalesco.

Geisy depois do parto amamentando as Marias: eduarda, com 2a6m e Cecília recém parida

Geisy depois do parto amamentando as Marias: eduarda, com 2a6m e Cecília recém parida

Estamos em uma nova fase do feminismo em que podemos vivenciar nossa sexualidade plena, na vida, no parto, na amamentação e com isso contribuindo para a construção de uma psique mais saudável de nossos filhos.

Meu filho vive rodeado de mulheres que amamentam em público. Certamente será um pai que incentivará o mesmo para com seus filhos. Sem achar que expor as mamas é um ato pornográfico. Afinal seu tempo oral foi respeitado e com desmame natural ele supriu suas demandas físicas, emocionais e espirituais deste período.

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Thays amamentando e sendo nutrida de amor por sua filha mais velha

Uma mãe que vive plenamente a sexualidade produz seres mais saudáveis e felizes. Em todas as instâncias de suas vidas.

Não, não é fácil. Mas vale a pena.

Amamentar é desnudar o corpo em qualquer lugar.

Disse o velho pornográfico escritor Nelson Rodrigues que toda a nudez será castigada. A nudez do corpo que se expõe para amamentar uma cria grande essa sim é. As mulheres nuas com seios de fora como carne em exposição para deleite masculino não-. Essa pode,

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Carla amamentando Arthur na praça

Olhos reprovadores de uma sociedade faz o peito ser uma mercadoria. Não vale as peladonas das revistas eróticas ou sambando na avenida. A nudez será castigada daquela que transgride a ordem vigente.

Quando a média de amamentação de uma nação não passa de 27 dias, amamentar por mais de 900 é nadar contra o estabelecido. Essa nudez deve ser castigada, censurada, aniquilada.

De toda nudez que será castigada, rasgar a alma e revelar as sombras da maternidade é a mais visada. O mundo quer vender a idéia da perfeição, da plenitude para que você se sinta desajustado e não procure saber dos desajustes alheios.

Quantas são as mulheres que fazem treinamento do sono e desmamam seus filhos com a desculpa de “salvar o casamento”. Como se as instâncias da mulher e mãe não pudessem coexistir em uma sexualidade sadia.

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Folhear as páginas fechadas da Revista Nova sobre sexo não é nada diante da abertura de si mesmo para as sombras da maternidade. Desnudar-se é mais do que estar sem roupa: é revelar a alma.

Em uma sociedade em que a mulher é mercadoria, os órgãos sexuais tem uma função muito além da biológica. Vaginas não parem. Peitos não amamentam.

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Quando as mulheres queimaram o sutiã e foram para o mercado de trabalho a indústria lucrou muito com a nossa mão de obra, agora seres pagantes e com necessidade de preencher a lacuna da ausência na criação com os filhos. A mamadeira, a chupeta se tornam ícones da liberdade. Nos tornamos iguais aos homens, até abrindo mão de amamentar. Alguém poderia fazê-lo por nós.

No Brasil a amamentação tem uma média ridícula de 27 dias exclusivos. Não é de se surpreender quando o país tem uma média de 52% de cesáreas, muitas delas eletivas. E qual a relação entre parto e amamentação:a relação direta é que os hormônios do trabalho de parto facilitam a descida do leite. o contato pele a pele, logo após o parto, permite um fortalecimento do vínculo. Um parto natural faz com que a mulher esteja mais disposta para amamentar e cuidar de sua cria.

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Uma mulher que passou por uma cesárea passou por uma cirurgia. Sente dificuldades para achar uma posição para dar de mamar. Sem contar que geralmente nas maternidades oferecem água glicosada ou leite artificial para o bebê. Quando ele vem ser amamentado, já está satisfeito.

Existe um fator essencial: a gente não sabe o quanto o bebê mamou. Se ele mama muito, se ele chora logo vem a falácia: leite fraco. E a gente que não acredita mais no corpo recorre a mamadeira.

Sem contar que muito pediatras não apóiam a amamentação. Muitos são patrocinados pela indústria dos leites em pó. Aos 4 meses não é incomum ver  receita de alimentos para ser introduzido. eu nem acho que todo bebê deva comer com 6 meses.

Amamentar não é fácil. No início mesmo com a pega correta, os seios podem rachar. Isso porque é como fazer uma longa trilha sem sapatos. Até criar calo, vai doer.

É preciso buscar apoio: doulas, bancos de leite para correta orientação do que fazer.

Mesmo voltando a trabalhar antes dos 6 meses do bebê é possível continuar a amamentar: tirar leite, estocar e oferecer para criança em copos e não mamadeiras. Evitar chupeta para não ter confusão de bicos.

Buscar apoio de si mesma e de grupos de apoio é fundamental para o sucesso da amamentação. Vou te contar: o cansaço vai bater e você vai sonhar com um mamadeira para fazer seu filho dormir uma noite inteira. Mas não vai adiantar. Talvez você terá um filho chorão com desconfortos causados pelas graúdas moléculas do leite da vaca/

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Mais sobre amamentação:

No país de quase 55% de cesáreas a amamentação é igualmente negligenciada. Poucos são os bebês que são colocados no seio no momento do nascimento e nas primeiras horas, mesmo os nascidos de parto normal.

Bebês precisam precocemente receberem a Colonização por bactérias: Mesmo que um parto natural não seja possível, um bebê deve ser colocado no seio da mãe imediatamente após o nascimento (de preferência sem precisar ser sugado, esfregado e banhado). Um estudo da Universidade de Porto Rico e da Universidade do Colorado (EUA) provou que a passagem pelo canal vaginal fornece ao bebé bactérias boas (Lactobacillus, Prevotella, Sneathia), enquanto os bebés que nascem por cesariana têm maior prevalência de bactérias que podem causar doenças (Staphylococcus, Corynebacterium, Propionibacterium). Esta diferença, dizem os cientistas, pode explicar as conclusões de estudos anteriores, que referem um maior risco de alergias, asma ou diarreia nas crianças que nascem por parto cirúrgico.

A Amamentação na primeira hora também é fundamental para a saúde de uma criança por toda a sua vida. Nada de berçário! O lugar do bebê na primeira hora é no peito da mãe. A primeira imunização, por meio do colostro, leite ainda em formação, mas rico em anticorpos, é recebida com mais imediatismo pelo organismo, o que aumenta a proteção do bebê contra infecções, a principal causa de mortalidade nos recém-nascidos. A mamada da criança estimula bastante a produção de leite materno e agiliza a liberação do hormônio ocitocina, cuja ação induz as contrações do útero e ajuda a evitar hemorragias no pós-parto. O efeito é tão mais eficaz quanto mais cedo o bebê começar a mamar, pois a sucção nos primeiros momentos de vida é mais vigorosa. O contato pele a pele entre mãe e filho deve acontecer rapidamente. Isso transmite calor e conforto ao bebê, além de reforçar os vínculos afetivos.

Amamentação exclusiva até 6 meses e prolongada: Nada de chazinho, água, suco, alimentos, leite artificial. O negócio é dar peito!
#1 Evita Mortes Infantis: Graças aos inúmeros fatores existentes no leite materno que protegem contra infecções, ocorrem menos mortes entre as crianças amamentadas. Estima-se que o aleitamento materno poderia evitar 13% das mortes em crianças menores de 5 anos em todo o mundo, por causas preveníveis. Nenhuma outra estratégia isolada alcança o impacto que a amamentação tem na redução das mortes de crianças menores de 5 anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Unicef, em torno de seis milhões de vidas de crianças estão sendo salvas a cada ano por causa do aumento das taxas de amamentação exclusiva. No Brasil, em 14 municípios da Grande São Paulo, a estimativa média de impacto da amamentação sobre o Coeficiente de Mortalidade Infantil foi de 9,3%, com variações entre os municípios de 3,6% a 13%. A proteção do leite materno contra mortes infantis é maior quanto menor é a criança. Assim, a mortalidade por doenças infecciosas é seis vezes maior em crianças menores de 2 meses não amamentadas, diminuindo à medida que a criança cresce, porém ainda é o dobro no segundo ano de vida (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2000). É importante ressaltar que, enquanto a proteção contra mortes por diarréia diminui com a idade, a proteção contra mortes por infecções respiratórias se mantém constante nos primeiros dois anos de vida. Em Pelotas (RS), as crianças menores de 2 meses que não recebiam leite materno tiveram uma chance quase 25 vezes maior de morrer por diarréia e 3,3 vezes maior de morrer por doença respiratória, quando comparadas com as crianças em aleitamento materno que não recebiam outro tipo de leite. Esses riscos foram menores, mas ainda significativos (3,5 e 2 vezes, respectivamente) para as crianças entre 2 e 12 meses.

#2 Evita diarréia Há fortes evidências de que o leite materno protege contra a diarréia, principal- mente em crianças mais pobres. É importante destacar que essa proteção pode diminuir quando o aleitamento materno deixa de ser exclusivo. Oferecer à criança amamentada água ou chás, prática considerada inofensiva até pouco tempo atrás, pode dobrar o risco de diarréia nos primeiros seis meses. (BROWN et al., 1989; POPKIN et al., 1992). Além de evitar a diarréia, a amamentação também exerce influência na gravidade dessa doença. Crianças não amamentadas têm um risco três vezes maior de desidratarem e de morrerem por diarréia quando comparadas com as amamentadas.

#3 Evita infecção respiratória A proteção do leite materno contra infecções respiratórias foi demonstrada em vá- rios estudos realizados em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil. Assim como ocorre com a diarréia, a proteção é maior quando a amamentação é exclusiva nos primeiros seis meses. Além disso, a amamentação diminui a gravidade dos episódios de infecção respiratória. Em Pelotas (RS), a chance de uma criança não amamentada internar por pneumonia nos primeiros três meses foi 61 vezes maior do que em crianças amementadas exclusivamente (CESAR et al., 1999). Já o risco de hospitalização por bronquiolite foi sete vezes maior em crianças amamentadas por menos de um mês. O aleitamento materno também previne otites.

#4 Diminui o risco de alergias. Estudos mostram que a amamentação exclusiva nos primeiros meses de vida diminui o risco de alergia à proteína do leite de vaca, de dermatite atópica e de outros tipos de alergias, incluindo asma e sibilos recorrentes (VAN ODIJK et al., 2003). Assim, retardar a introdução de outros alimentos na dieta da criança pode prevenir o aparecimento de alergias, principalmente naquelas com histórico familiar positivo para essas doenças. A exposição a pequenas doses de leite de vaca nos primeiros dias de vida parece aumentar o risco de alergia ao leite de vaca. Por isso é importante evitar o uso desnecessário de fórmulas lácteas nas maternidades.

#5 Diminui o risco de hipertensão, colesterol alto e diabetes Há evidências sugerindo que o aleitamento materno apresenta benefícios em longo prazo. A OMS publicou importante revisão sobre evidências desse efeito (HORTA et al., 2007). Essa revisão concluiu que os indivíduos amamentados apresentaram pressões sistólica e diastólica mais baixas (-1,2mmHg e -0,5mmHg, respectivamente), níveis menores de colesterol total (-0,18mmol/L) e risco 37% menor de apresentar diabetes tipo 2. Não só o indivíduo que é amamentado adquire proteção contra diabetes, mas também a mulher que amamenta. Foi descrita uma redução de 15% na incidência de diabetes tipo 2 para cada ano de lactação (STUEBE et al., 2005). Atribui-se essa proteção a uma melhor homeostase da glicose em mulheres que amamentam. A exposição precoce ao leite de vaca (antes dos quatro meses) é considerada um importante determinante do Diabetes mellitus Tipo I, podendo aumentar o risco de seu aparecimento em 50%. Estima-se que 30% dos casos poderiam ser prevenidos se 90% das crianças até três meses não recebessem leite de vaca.

#6 Reduz a chance de obesidade A maioria dos estudos que avaliaram a relação entre obesidade em crianças maiores de 3 anos e tipo de alimentação no início da vida constatou menor freqüência de sobre- peso/obesidade em crianças que haviam sido amamentadas. Na revisão da OMS sobre evidências do efeito do aleitamento materno em longo prazo, os indivíduos amamenta- dos tiveram uma chance 22% menor de vir a apresentar sobrepeso/obesidade. É possível também que haja uma relação dose/resposta com a duração do aleitamento materno, ou seja, quanto maior o tempo em que o indivíduo foi amamentado, menor será a chance de ele vir a apresentar sobrepeso/obesidade. Entre os possíveis mecanismos implicados a essa proteção, encontram-se um melhor desenvolvimento da auto-regulação de ingestão de alimentos das crianças amamentadas e a composição única do leite materno participando no processo de “programação metabólica”, alterando, por exemplo, o número e/ou tamanho das células gordurosas ou induzindo o fenômeno de diferenciação metabólica. Foi constatado que o leite de vaca altera a taxa metabólica durante o sono de crianças amamentadas, podendo esse fato estar associado com a “programação metabólica” e o desenvolvimento de obesidade.

#7 Melhor nutrição: Por ser da mesma espécie, o leite materno contém todos os nutrientes essenciais para o crescimento e o desenvolvimento ótimos da criança pequena, além de ser mais bem digerido, quando comparado com leites de outras espécies. O leite materno é capaz de suprir sozinho as necessidades nutricionais da criança nos primeiros seis meses e continua sendo uma importante fonte de nutrientes no segundo ano de vida, especialmente de proteínas, gorduras e vitaminas.

#8 Melhor desenvolvimento da cavidade bucal: O exercício que a criança faz para retirar o leite da mama é muito importante para o desenvolvimento adequado de sua cavidade oral, propiciando uma melhor conformação do palato duro, o que é fundamental para o alinhamento correto dos dentes e uma boa oclusão dentária. Quando o palato é empurrado para cima, o que ocorre com o uso de chupetas e mamadeiras, o assoalho da cavidade nasal se eleva, com diminuição do tamanho do es- paço reservado para a passagem do ar, prejudicando a respiração nasal. Assim, o desmame precoce pode levar à ruptura do desenvolvimento motor-oral adequado, podendo prejudicar as funções de mastigação, deglutição, respiração e articulação dos sons da fala, ocasionar má-oclusão dentária, respiração bucal e alteração mo- tora-oral.

Fonte: MINISTÉRIO DA SAÚDE – Secretaria de Atenção à Saúde Departamento de Atenção Básica.

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