5
ago
2016

Leite materno é composto de apoio e informação

Por: Macella Tutty

Carta aberta para meu filho de (quase) seis meses.

Filho, daqui a alguns dias você completará 6 meses. E, contra minhas próprias expectativas, completaremos 6 meses de amamentação exclusiva. E filho, isso é motivo de orgulho pra mim. Não por inflar meu ego, como algumas pessoas pensam, mas por ter vencido todas as dificuldades de ser o único alimento de outro ser.

Algumas mães se gabam das bolsas novas, outras de terem recuperado o corpo de antes da gravidez, há as que se gabam dos filhos que dormem a noite inteira, e as que se gabam de terem retomado a vida “normal”, como se eu pudesse algum dia viver a vida anterior a sua chegada…e achar isso normal. Há ainda as que se gabam das coisas que podem dar aos filhos. E eu filho, eu sem o corpo de antes, eu que vivo uma vida totalmente diferente depois da tua chegada, eu que, de tão exausta, não consigo dormir direito, eu que não tenho muito a te oferecer além de mim mesma.. eu me gabo de ter sido seu único e exclusivo alimento durante seus primeiros seis meses de vida.

Sim filho, fui eu. Eu que fui teu alimento. Meu sangue, minhas dores, meu cansaço, meu amor, minhas falhas, tudo isso compõe o leite que te nutre. E é tão difícil ser alimento. É exaustivo.

Não foi fácil tomar o caminho difícil, não te dar chazinhos que te fariam dormir mais e que supostamente resolveriam tuas “cólicas”, não te dar um leite de mais lenta absorção e que deixaria de estômago cheio por mais tempo me dando assim, quem sabe, a possibilidade de descansar mais. Não filho, não foi fácil resistir à doce tentação de calar teu choro com uma chupeta ou bico artificial. Muito menos de não ceder à “chuquinha”, que tanto me perguntam todos os dias, para conseguirmos prosseguir no peito sem a confusão de bicos até seus 2 anos, ou quem sabe mais.

Filho, não foi fácil superar a média nacional de 54 dias de aleitamento materno. Não foi fácil dizer não a todos os facilitadores sutis que o mundo nos oferece. Não foi fácil dizer a todos que o meu leite era tudo o que você precisava. E sobretudo, não foi fácil ser o único alimento que posso te oferecer.

Eu não superei apenas as dificuldades inerentes aos cuidados de um bebê. Superei a mim mesma. Superei minha ignorância. Superei minha insegurança. Superei meu cansaço, minha soberba. Sabe quantas vezes procurei ajuda? Não? Nem eu. Pesquisei, li, perguntei. Eu, tua mãe.

Amamentar para quem olha de longe parece ser tão simples: “uma mãe saca o próprio peito e coloca na boca do bebê. Este se alimenta e a mãe, vitoriosa, não precisa fazer nada”. Pena que na verdade não é assim. A única praticidade de amamentar consiste em não ter que misturar leite em pó e água dentro de uma mamadeira que precisa ser lavada e esterelizada. Não é só corpo que produz o leite, e nem sempre amamentar é bonito. Pra amamentar filho é preciso estar 100% disponível, o corpo, a alma e a mente. É preciso ter apoio e nós pudemos contar com o apoio do teu pai, de outras mamães nutrizes e de mulheres, consultoras de amamentação, que dedicam seu tempo a ajudar aquelas que se enchem de dúvidas e incertezas ao longo dessa caminhada.

Filho, não pense que foi fácil. Quantas vezes morri de vergonha quando o leite, inesperadamente, molhava minha roupa? Quantas vezes não quis eu mesma tirar meu peito e dar pra outra pessoa pra “descansar um pouquinho”. Quantas vezes não me perguntei “será que só meu leite é suficiente?” Pois vivemos em uma sociedade que ensina as mulheres a duvidarem de seus próprios corpos. Não, filho, não foi fácil. E as dores do peito cheio? Filho, quanto tu chegastes eu não sabia o que era amamentar. Todas as pesquisas do mundo não me prepararam para a realidade. E até tu aprender a pega correta, meu peito jorrava de tanto leite. Parecia que ia explodir. Foi a primeira vez que eu quis desistir. Ao invés disso eu procurei ajuda, de enfermeiras do Hospital que foram anjos para mim. Te entreguei para seu pai e fiquei de 00:00 as 06:20 da manhã, com duas enfermeiras, uma em cada peito, tentando tirar as pedras de leite que se acumulavam, enquanto eu gritava de dor. Superamos. Depois vieram tuas cólicas e a certeza de que era meu leite te fazendo mal, mamãe parou de comer tudo que pudesse te causar gases, até viver praticamente de água e frutas. Foi difícil filho, mas, com apoio de outras nutrizes, superamos.

Te alimentar me deixa feliz. Ter superado todas as dificuldades, não se engane, não foram só essas que escrevi, me faz feliz. Não tem nada mais bonito do que tua felicidade quando vês o peitinho jorrando leite. Do que quando você para de mamar para apenas sorrir para mim, e volta a mamar. Não tem nada mais feliz do que tua saúde. Juntos, superamos o sistema que nos faz duvidar de nossos corpos, desde o momento em que você veio ao mundo, em um parto completamente natural. E sim filho, continuaremos juntos nessa jornada, não pelo ego da tua mamãe e sim porque nós sabemos que a natureza é perfeita, nós sabemos que somos capazes.

Um beijo com muito leitinho pra você, mamãe.

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