12
set
2016

Livre de tudo que sei e escravo do que ignoro

Antes de começar a ler este post pense nessa frase de Spinoza: “Sou livre de tudo que sei e escravo de tudo que ignoro.” 

Vira e mexe aparece um novo blog com esse tema: para ser a mãe perfeita precisa parir em casa na banheira de peixinho, ter doula, amamentar até o filho ir para faculdade e o que mais a cabeça desta mulher claramente ferida puder mostrar o quão irreal são essas colocações.

Os textos sempre terminam com uma frase: faça do seu jeito, com amor e blablabla. Alguns mencionam a conhecida frase: ninguém é menos mãe por X, Y, Z.

Estamos falando de mulheres adultas que tem direitos de escolha, correto? Toda escolha, no entanto, leva a uma autorresponsabilidade. Nem tudo dá tempo ou conseguimos adotar para se aproximar daquilo que consideramos ideal. Em cada mulher tem o mito da mãe ideal. Para algumas vai ser daquela mulher linda e bem sucedida que volta para o mercado bem antes do filho ter 40 dias. Para outras uma mãe que busca alternativas mais naturais, deixa de trabalhar, faz a comidinha orgânica do próprio filho. Quanto mais recém parida mais complicada é essa sensação de inadequação da vida real X ideal.

Essa mãe que eu, você ou qualquer pessoa idealizamos não existe. É uma forma que temos de comparação. Mas fato é que somos, talvez, a primeira geração de mulheres com mais acesso a informação e possibilidade de troca de experiências de todos os tempos.

Quando engravidei, há 9 anos, não existiam blogs. A informação sobre gestação, amamentação, criação dos filhos estava em posse dos médicos, mal traduzidas pelos órgãos de imprensa. Existiam algumas listas de discussão no yahoo mail e ali as mais experientes apontavam o caminho das pedras.

Surgiram as plataformas gratuitas de blogs e as pessoas começaram a criar conteúdos e grupos de todos os tipos. De todos os tipos, mesmo.

Existem “pontos” que são irrevogáveis: as evidências científicas. Elas também mudam, é verdade, mas são um bom parâmetro para tomada de decisões.

Já se sabe que: parto normal é mais benéfico para mãe e bebê, que amamentar até 2 anos ou mais, que educar sem palmadas pode ser melhor. Comidas industrializadas, alimentos não orgânicos não fazem bem para a saúde.

Podemos conhecer até mesmo para tomar uma decisão contrária sem refutar o conhecimento mas simplesmente chegar a conclusão que não é condizente com a nossa realidade.

Em minha jornada materna eu aprendi, ao invés de julgar as mães que pareciam atender a esse ideal incansável de perfeição, tentar entender as decisões que haviam tomado, como faziam, quais os benefícios. Eu poderia chegar a conclusão que não cabia na minha realidade. Porque cada um faz o que pode, como dá, com o tanto que sabe.

Logo que engravidei eu tinha pacote maternidade classe média: quartinho do bebê, poltrona de amamentação. No segundo dia (o primeiro dormimos juntos na cama), fui eu, como a mãe do filme de margarina. Sentei na poltrona com a maior paciência do mundo. Meu bebê dormiu. Quando fui coloca-lo no berço ele acordou. Repeti a operação umas 5 vezes até que pensei: Fudeu! Será que vou ter que passar 6 meses sem dormir de noite? Era impossível dormir naquela poltrona.

Exausta fui para o quarto do casal e meu marido levantou no primeiro gemidinho do bebê. E cada vez que o bebê acordava, meu marido reclamava.

Naquela noite eu cheguei a conclusão que cama compartilhada (incluindo meu marido) não iria funcionar. Que aquela poltrona também não.

No dia seguinte recebi dicas: coloca um colchão no chão no quarto do seu filho. Deita lá com ele. E na noite seguinte o colchão de casal do quarto de hóspede subiu. Deitei ao lado dele e quando estava dormindo profundamente sai e fui para minha cama.

Quando ele chorou voltei para amamenta-lo, deitada. Claro que vieram me dizer: da mamadeira! Claro que vieram reforçar que cama compartilhada era perigoso, que fazia mal, mimava etc. Mas aquilo era o que fazia mais sentido para mim. Então, ouvindo as mães eu pude criar a minha maneira e estudar para reforçar as minhas escolhas.

Hoje, 9 anos depois, vejo meu menino afetuoso e corajoso e sei que isso é muito das escolhas que fiz: não deixar chorar, nunca. Amamentar até quando ele desejasse (4 anos em livre demanda). Não bater, entre outras.

Algumas cosias, como alimentação, vacilei um pouco com um menino que não comia tanto assim. Eu nem tinha ouvido falar de BLW (o que de fato aconteceu porque Miguel só comeu quando deixei de dar comida esmagada para ele).

Quando você se sentir “menos qualquer coisa” na vida pense na sua autorresponsabilidade. Viver é um continuo aprendizado. Quando você se sentir “menos qualquer coisa” pense que você está se comparando a algo que está do lado de fora. Olhe para o  “menos qualquer coisa”. O que você queria fazer de verdade? Estude, se aproxime de pessoas para entender como fazem e adapte com sua realidade possível.

Você queria amamentar até 3 anos mas putz, tá muito difícil chegar do trabalho e o bebê plugado no peito e você sem dormir? Compartilhe com quem passou por isso. Ouça. Experimente (mais de 1 vez) para ver se dá certo com você. Se é importante, avalie o que você pode negociar. Ou como fazer uma transição menos traumática.

Posso dizer uma coisa: seu filho vai sobreviver tantos aos radicalismos como a falta deles. Mas a idéia é que ninguém sobreviva! Acredito que estamos nesse planeta para educarmos a nós mesmos para inspirar nossos filhos.

Através dos nossos passos rumo a maternidade perfeita vamos aprendendo a lidar com a maternidade possível. Vamos tropeçar muitas vezes, levantar, tomar outros caminhos, continuar com perseverança no mesmo. Sobretudo olhar para nós mesmo e nos reinventarmos, questionar, estudar, aplicar e adaptar.

São essas lições, esses caminhares, que nos fazem “mais mães”. Mais ou menos somos todas mães, procurando, nesse quarto bagunçado de informações discrepantes, dentro de uma sociedade machista e desempoderadora descobrir nosso lugar como mãe, mulher e muito mais. Entre lágrimas e sorrisos ainda descobrir o tom único da maternidade autêntica.

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