16
jan
2017

O útero social

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Se existe um órgão que a sociedade tenta fazer suas ingerências é o útero da mulher.

Desde cedo há esta busca para controlar esse espaço de domínio feminino. Hormônios e chips para que não sangremos. A mulher perde a capacidade de observar como seus processos psíquicos, emocionais e espirituais atuam em cada etapa do ciclo. Essa é a busca da normose, dos dias iguais sem dor.

O controle é tão eficiente que atualmente muitos médicos indicam hormônio logo acontece a primeira menstruação.

E qual o problema, diriam alguns? Menstruar todos os meses não é normal para nenhuma espécie.

Oras, nossa capacidade de pensar é o que teoricamente nos difere das outras mamíferas. Sangrar é limpar o útero das dores sexuais, da energia despejada através do esperma em nosso jarro, limpar a mente do excesso de “pensação”. A TPM nada mais é que uma lente de aumento para problemas que, ao longo do restante do ciclo, jogamos por debaixo do útero.

Chega a hora determinada em que a sociedade exige que você use seu útero para a função reprodutiva: mas é preciso que você tenha um marido, posses, diplomas. Não ouse engravidar sem esses itens de série.

Se você decidir não usar seu útero para gerar descendentes será considerada um mulher incompleta.

Se você resolver seguir o barco ou o acaso. Bem….o bebê está lá dentro. Estão ali todos, fora, em suas ingerências sobre o útero: dizem o que, como você deve comer (e que também não deve caso esteja acima do peso), o que pode ou não fazer. Determinam que o útero não pode trabalhar (aliás ele não trabalhou a vida toda para menstruar). E o bisturi está lá para provar a nossa incapacidade feminina. Julgarão seu parto independentemente da sua escolha. Se pariu, se optou por uma cesarea, você indubitavelmente será condenada.

Mas se você resolve não ter esse bebê… Ali encontrará uma sociedade com seus mil julgamentos, condenando a mulher antes de conhecer os labirintos para esta escolha, sem dar qualquer apoio ou estrutura para caminhos diferentes.

Essa mãe, com seu bebê nos braços, também será julgada por ter escolhido tal caminho fora dos padrões sociais. Não é casada? Tem mais de um filho com pessoas diferentes? Sua alma está perdida! O homem sempre é poupado dos julgamentos, um pouco. Será ovacionado por ser um pai maravilhoso mesmo quando só fizer sua obrigação, rotina da vida feminina.

Se essa mulher tem apenas um filho, julgamentos. Será chamada de egoísta por não ter dado um irmão para essa criança. Quando tem o segundo está na hora de parar. Um terceiro é considerado um erro a ser corrigido com uma cirurgia. O quarto! VIXI.

Está na hora de assumirmos o poder sobre nossos úteros e fazer com ele o que quisermos. Sangrar ou não. Cortar ou não. Parir ou não. Mas estude e procure saber se alguém está determinando o destino do seu útero fingindo que você é a protagonista. Vejo um monte de mulheres ventrílocas deste controle social justificando suas pseudos escolhas com as escolhas que a sociedade já determinou para nós. Você pode, se assim decidir inclusive não usar esse orgão para fins reprodutivos.

Ao tomarmos posse do nosso útero, do nosso sangue, do nosso ciclo, nos conheceremos nuas e cruas, como a sociedade não nos quer. Porque ao sangrar talvez vejamos as mil feridas do feminino deste mundo e nunca mais conseguiremos nos calar e ficar trancafiadas em casa alienadas com nossos corpos e cartelas hormonais. A revolução se faz com sangue.

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