30
jan
2015

Outra vez: agora natural domiciliar pelo SUS de BH

Relato por Carol Carvalho, 27 anos, mãe da Aurora, nascida em Setembro de 2010 num parto hospitalar no Rio de Janeiro. Na gestação da Aurora foi vítima do sistema que busca defeitos até no que é perfeito. Acabou em um parto induzido, onde tudo correu bem, mas que não foi o parto dos seus sonhos.

Atualmente mora em Campo Belo, MG e veio para BH viver um lindo parto domiciliar sob as lentes do Olhar Mamifero

10/01/2015: 07:17
Hoje acordei cedo e não consegui dormir mais. Sei que não foi por causa do quarto claro, cuja janela totalmente aberta deixava entrar a luz de uma linda manhã, mas era a sensação de que hoje algo iria acontecer. Ontem tive uma minúscula perda de tampão, talvez eu nem tivesse visto, mas eu estava atenta a qualquer sinal, porque sentia que seria nesse fim de semana que você chegaria, Nina.
Dia 10 de janeiro. Levantei, após esperar passar uma longa contração indolor, como as várias que venho tendo nos últimos dias, em preparação para nossos corpos se acostumarem com esses abraços apertados que te conduzirão aqui para fora. E uma canção não me saiu da cabeça “Meu coração pulou, você chegou, me deixou assim, com os pés fora do chão, pensei ‘Que bom! Parece, enfim, acordei.'” Cantei baixinho, pois em casa todos ainda dormiam, e lágrimas me escorreram pelos olhos, enquanto a voz embargava. Fiquei imaginando sua chegada e que eu e sua irmã cantaríamos pra você essa canção.
No papel higiênico, mais tampão, dessa vez não teria como passar despercebido. Sinto vontade de logo trocar de roupa e ir andar um pouco, estimular meu corpo pra que ele fique desperto e presente para tudo que poderá acontecer. Mas vou esperar até que alguém mais acorde, para me fazer companhia lá embaixo. Queria que fosse seu pai, mas ele não vai acordar tão cedo, e é até bom que descanse, porque pode ser que tenhamos um longo dia pela frente…

13:03
Como ninguém acordou, fui ficando entediada e o sono voltou. Deitei novamente e só acordei às 10h. Tomei um banho e percebi que as contrações estavam vindo com uma dorzinha na parte baixa da barriga, mas bem espaçadas. Resolvi baixar um aplicativo para monitorar a freqüência e duração dessas contrações. Ainda não existe um padrão, chegam a cada meia hora, 20 minutos, 40 minutos… E duram uns 40 segundos.
Mais tampão saiu, dessa vez não agüentei guardar pra mim e fui mostrar pro Arthur. Que bom que ele não teve nojo, até quase esboçou um sorriso.
Seus avôs parece que estão sentindo sua chegada. Os dois já ligaram pra ter notícias de nós.
Você continua mexendo muito, até porque esses abraços apertados que são as contrações não devem estar te deixando tirar cochilos muito longos. E eu adoro sentir essas mexidas, que me mostram que você está bem. Aproveito pra conversar, mexer na barriga, afinal, logo estaremos juntas e quero que você ouça mais da minha voz hoje, pra que ela te acalme assim que você vier pro meu colo. Talvez por isso eu esteja tão tagarela.

15:13
Saímos para almoçar e as contrações deram uma desregulada. Ora intervalo de 9 minutos, ora de quase meia hora. Estou com medo de não saber que horas ligar pra equipe, porque estou esperando vir uma dor maior, ou um intervalo menor, e não sei se eles virão.
Em casa, melhor deitar. Todos precisamos descansar para o que está por vir.

19:37
Nunca imaginei que, sendo essa a segunda gestação, fosse ter pródromos tão longos. 12h já sem evolução no padrão. Mesmas contrações pouco doloridas e sem intervalo ritmado…

23:01
Há uma hora pedi ao Nego que me acompanhasse lá no play pra dar uma caminhada. Na meia hora que ficamos lá, não veio nenhuma contração. Depois vieram duas num intervalo de 20 minutos… Vai entender! Pródromos…
Vou me deitar agora um pouco frustrada, mas ainda com esperança de que o trabalho de parto engrene de madrugada. Acabou de sair mais um tanto de muco do tampão. Queria muito que, com o calor que anda fazendo, o parto fosse à noite. Ou Nina vai nascer na banheira com água fria.

11 de janeiro

04:09
Desde mais ou menos 1:30 venho sentindo contrações mais dolorosas e, como eu já sabia, a posição deitada aumenta a dor. Então pedi pra minha mãe trocar de quarto comigo, porque eu estava numa cama de solteiro com o Nego na caminha de puxar e, para ficar em pé, precisava passar por cima dele, um custo. Já minha mãe e Aurora estavam na cama de casal, então trocamos no meio da noite. De lá para cá já foram algumas contrações bem doídas de mais ou menos meia em meia hora. Precisei me levantar e me apoiar na janela para dar uma rebolada. Então deu fome. Enquanto lanchava, senti algumas contrações mais fracas. E fiquei me perguntando que horas devo ligar pra equipe, porque se me adianto muito, elas ficam aqui esperando sem nem ter lugar pra se deitarem. Se demoro muito, corremos o risco de ter um parto desassistido e não fotografado. Não consegui dormir depois disso e fiquei monitorando o intervalo. Está ainda desregulado, mas bem menor e com menos dor, chegando a 4 minutos às vezes.
Assim que clarear o dia, ligo pra elas virem. Se der pra esperar até lá.

05:08
Não deu pra esperar. Ligamos pras três: doula, enfermeira e fotógrafa, que estão a caminho. Ainda sem padrão, mas muito próximas, as contrações estão ficando mais doloridas. Quando falo em dor, não é algo insuportável, nem mesmo ruim. É a dor que eu tanto ansiei por sentir nesses últimos dias. É uma fisgada que me lembra que está finalmente chegando minha Nina. Quando ela começa, preciso me concentrar, deixar de conversar e lembrar de respirar fundo para que não falte oxigênio pra Nina. Por enquanto está tranquilo. Vamos dando, assim, um passo de cada vez.

05:34
Está lindo ver minha mãe e o Nego preparando a casa, tirando malas e móveis para dar lugar a apetrechos do parto. Aurora e Jojô ainda dormem. Estou imaginando a carinha da Lola ao acordar e ver a movimentação pela casa, talvez me veja na piscina… E ela vai entender que agora a Nina está mesmo chegando!
Queria conseguir me deitar um pouco mais, mas é difícil me levantar quando a contração já começou e ficar deitada é sem chance. Até que a Junia chegue com a maravilhosa bola suíça, o jeito é ficar segurando na beirada da janela e dar umas boas reboladas.

(E aí tudo aconteceu! Já é dia 12 de janeiro, vou tentar recordar com o máximo de detalhes os eventos que sucederam a ultima anotação)

Por volta das 6:30 chegaram a Sintia, nossa enfermeira e a Kalu, fotógrafa. Sintia viu minha pressão e ficou conosco até que chegasse a Jordânia, porque ela teria que sair pra um batizado. Ainda teve tempo de montar toda parafernália que garante segurança ao parto em casa; até balão de oxigênio veio. Já adianto que não precisamos de nada! A princípio ficamos meio inseguros de não termos a Sintia conosco, porque não tínhamos encontrado com a Jordânia ainda, mas eu confiava que seria uma excelente profissional. E foi!
Junia chegou trazendo doçura e apetrechos para aliviar a dor. Até então, vinha contração, eu me segurava na janela ou numa parede e rebolava. Aliviava um pouco e, na verdade, esse deve ter sido o movimento que mais fiz sempre que estava em pé. Com a chegada da Junia primeira posição que tentamos foi de quatro na cama, apoiada sobre a bola suíça e recebendo massagem na lombar. Essa massagem acabou sendo a melhor anestesia do meu parto e sem ela não sei se teria conseguido! Incrível como um toque torna a dor mais suportável!
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Mas ficar de quatro fez doer minhas pernas e braços, então alguém me sugeriu de ir para o chuveiro com a bola. Fomos eu e o Nego, ele ficou do lado de fora, sentado no vaso, me olhando. Às vezes ele abria a porta do box pra me ver melhor, por causa do vapor, mas, apesar de eu desejar estar próxima dele, entrava um vento friiiio e eu precisava fechar o box. Eu deixava a água bem quente cair e rebolava na bola, era uma sensação tão boa que relaxei ao ponto de cochilar com a cabeça apoiada na parede. Mas tanto relaxamento fez com que as contrações ficassem espaçadas, eu precisava me movimentar pra que elas viessem mais efetivamente e dessem conta de dilatar o colo. Então saí do chuveiro e fui caminhar, depois sentei na bola com Junia massageando as costas e me apoiando no Nego… Fomos tentando várias coisas.
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Depois disso as lembranças começam a ficar meio embaralhadas, talvez porque, enfim, eu tivesse entrado no trabalho de parto ativo. Antes disso era a fase latente, com contrações mais espaçadas e suportáveis. Quando começaram a ficar próximas, Kalu, que antes de ser de fotógrafa é doula, sugeriu que eu entrasse na banheira. Foi uma sensação muito boa ter o corpo coberto pela água morna. Mas nas contrações, novamente, eu precisava da mão da Junia na minha lombar.

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Sei que fui alternando, ora ficava na banheira, ora me levantava um pouco e andava… Durante todo o tempo a Jordânia vinha ver os batimentos da Nina, mesmo dentro da banheira, e tudo estava perfeito. Fiquei encantada porque ao invés de me pedir para ficar quieta para ver os batimentos, ela dizia que eu podia me mexer quando viessem as contrações. Em momento algum me foi sugerido fazer exame de toque. Eu até fiquei curiosa em alguns momentos, afinal, sentia dor e queria muito poder ouvir “Quase! 8 centímetros!” Mas não podia correr o risco de ouvir “4 centímetros”, porque aquilo poderia me desestabilizar e me fazer pensar que não fosse conseguir. Então decidi não pensar nisso e nem nas horas. Só ia seguindo o ritmo que as contrações iam ditando.
Tive muita sede e pedi água o tempo todo. E sempre alguém me oferecia algo para comer. Passas, castanha, suco, melzinho… Isso me garantiu energia.
Por volta de meio dia saí da banheira para a banqueta de parto. Veio uma contração e eu empurrei. A bolsa de líquido amniotico literalmente explodiu. Parecia que tinha estourado uma bexiga de água no meio das minhas pernas. O líquido foi longe! Logo depois, a próxima contração veio mais suportável ao invés de ficar mais intensa, como eu imaginei que fosse. O líquido estava claro, o que é um ótimo sinal, e continuou saindo nas próximas contrações. Eu sabia que, depois disso, o parto talvez evoluísse mais rápido, porque ela iria encaixar e começar a descer pelo canal vaginal.

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E foi exatamente o que aconteceu. Logo voltei para a banheira e vieram várias contrações. Eu fiquei de olho fechado quase o tempo todo e dormia entre as contrações, ouvia a voz da Aurora longe, brincando com a madrinha (como fala alto essa criança!), às vezes abria os olhos e via minha mãe passar de um lado para o outro, parecia tensa. Disse qualquer coisa para acalmá-lá, mas não sei se adiantou. O apartamento pequeno não pareceu cheio hora nenhuma, cada um se ocupava de uma missão, desde ir com Aurora pro play até aquecer água nas panelas para deixar a piscina sempre morninha.

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Na minha cabeça, nada estava acontecendo. Vinha contração, vinha o sono, vinha outra contração parecia que muito tempo depois… Apesar dos olhos fechados e de me transportar pra longe, estive bem mais consciente que no parto da Aurora, que aconteceu na base da ocitocina sintética. Assim, consegui perguntar algumas vezes se esse tipo de contração parecia ser eficiente, se estavam durando o suficiente pra trazer a Nina. Jordânia e Kalu me confortavam dizendo que estava tudo certinho e que estava quase. Como no parto da Aurora, achei que estavam me enrolando e só acreditei que estava quase quando coloquei o dedo dentro de mim e senti, bem no fundo, a cabecinha da Nina! Depois disso as contrações foram ficando diferentes. Eu já havia dilatado tudo, agora era a fase explusiva. Nina iria descer pelo canal vaginal e sair. Eu sabia disso, afinal, já estudei tanto a fisiologia do parto. Entender como meu corpo iria funcionar trouxe uma tranquilidade enorme, não sei como não falamos sobre isso nas escolas, toda mulher deveria saber o que acontece com seus corpos quando está parindo!
Então cada contração trazia consigo o desejo de empurrar. Era mais forte que eu, sentia minha barriga contraindo e uma pressão no reto, como se fosse sair um cocô. E eu sabia que até poderia sair e isso seria normal. Mas era “só” a cabecinha da Nina descendo no canal e comprimindo o reto. Comecei a colocar o dedo com mais freqüência e logo sentia ela a pouco mais que a dobrinha do dedo médio, seja lá quantos centímetros dá isso. Era muito pertinho! Logo ela ia coroar! Batimentos ainda super normais, Nego sentado atrás de mim, eu apertando a mão dele, Junia me fazendo massagem na lombar, os dois me lembrando de respirar fundo pelo nariz e soltar soprando devagar… Estava tudo acontecendo tão bem! Sim, doía, claro, mas era uma dor diferente, era uma dor boa, se é que isso existe! Essas contrações não eram reprimidas, mas muito desejadas, porque eu sabia que cada uma delas trazia a Nina pra mais perto de nós. Me peguei sorrindo entre as contrações e até quando elas começavam. Abri os olhos e vi a Kalu registrando e fiquei feliz, porque queria poder mostrar para o mundo que o parto não precisa ser um evento temido, mas que pode ser vivido com alegria! O que eu sentia era algo mágico, eu não conseguia não sorrir. Bem, até a contração vir mesmo, porque aí me doía e eu soltava meus grunhidos, às vezes gritos, chamava pela Nina.
Como fui saber depois, quando me ouviu gritar, Aurora, que até então estava no quarto, pediu para ir ver e queria que minha mãe fosse junto. Isso foi ótimo, porque ela estava receosa e talvez não tivesse ido por conta própria. Logo todos estavam na sala e eu entendi que era mesmo a hora. Pedi que colocassem as músicas que eu havia escolhido para esse momento. Ou seja, até ali, totalmente consciente! Existe o que chamamos de partolândia, que é um estado de quase alucinação em virtude dos hormônios. Praticamente não aconteceu comigo, infelizmente, porque é uma droga deliciosa de ser usada, sem contra indicação!rs Fiquei tão consciente que perguntei se haviam pegado fraldinhas para cobrir a Nina.rs
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E aí veio o círculo de fogo, a sensação de ardor e queimação de quando a cabeça começa a esticar a vagina. Não foi legal! Pensei que ia conseguir parir toda linda e bela, só na base da respiração bem funda e de gemidos com classe, mas, que nada. Gritei, xinguei, desejei que acabasse logo. Porque arde mesmo! Logo mais uma contração e meu corpo empurrou várias vezes e a cabeça dela começou a sair! Cabeluda! Ouvi Aurora dizer: “Ela é moreninha!” Minha barriga ainda grande não me deixava ver direito. Nesse momento o Arthur já tinha trocado de lugar e estava na minha frente, pronto para amparar nossa filha. Junia ficou atrás de mim para segurar minhas mãos. Tentei não apertar muito, como vinha fazendo com o Nego, pra não machucar minha doula.rs Mais contração e saiu toda a cabecinha dela! E parou de arder. Faltavam os ombros, queimou de novo, mas logo ela veio, até a cintura, ficando apenas com o quadril e as perninhas dentro de mim. Que momento mágico!! Minha filha ali, parte fora e parte dentro de mim, se despedindo do lar que a abrigou por 40 semanas e 1 dia, e reconhecendo o mundo no qual passaria a habitar. Ela abriu os olhos dentro da água, mexeu as mãozinhas. Arthur e eu a tocávamos, esperando que terminasse de sair. Ela permaneceu assim ainda por umas duas contrações e depois veio inteira, pelas mãos do pai, direto para o meu colo. Roxinha, peludinha, zunhudinha! Não chorou, só fez uns barulhinhos de quem está estranhando um pouco as coisas. O relógio marcava 13:50, ou seja, depois que a bolsa estourou aconteceu tudo isso em menos de duas horas.MVI_3498-8 MVI_3498-10 MVI_3498-11 MVI_3498-12

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Ficamos ali, na mesma posição, Nina sobre mim, coberta por uma fraldinha, que íamos molhando para que ela não sentisse frio. Arthur e eu cantamos para ela “Meu coração pulou, você chegou, me deixou assim…” Todo mundo emocionado, Aurora mostrando o desenho que havia feito para a irmã e onde pediu que a vovó escrevesse “Estou muito feliz porque minha irmã vai chegar.” Depois de algum tempo, ela estava dentro da banheira conosco, beijando a irmã e fazendo sapequices. E eu não conseguia acreditar, tinha sido lindo demais! Meu marido, filha, mãe e tia haviam visto todo o parto, participado, se emocionado, e depois não ia ter berçário nenhum, separação nenhuma! Tinha dado tudo certo! Aliás, faltava um detalhe importante: a placenta. Ela ainda precisava sair. A da Aurora saiu logo depois que ela nasceu, mas a da Nina demorou um pouco mais. Ainda na banheira tentamos colocar a Nina para mamar, porque ela já estava procurando o seio e porque isso estimula o útero a contrair e a liberar a placenta. Kalu disse que, por estar na banheira, ela tenderia a não sair tão facilmente, que o ideal era me levantar. Então tá, vamos lá, força na peruca. Como eu ia levantar com a Nina ainda presa a mim pelo cordão, no meu colo, com o corpo fraco e o cóccix doendo, eu não sabia. O Nego me sustentou e fiquei de pé, meio trêmula. Consegui sair e me sentei, com a Nina ainda no colo, na banqueta de parto. O cordão ainda não havia sido cortado porque, apesar de passada quase uma hora, ainda pulsava! Junia desceu para pegar uma vasilha no carro, para colocar embaixo de mim, para que a placenta caísse lá. E foi a conta de ela entrar de volta no apartamento, eu senti que a placenta vinha escorregando com uma contração. Disse pra ela correr, que não ia dar tempo, mas até isso foi perfeito, porque assim que ela colocou a vasilha, a placenta caiu. Com ela, fizemos uma impressão chamada de árvore da vida, que é feita com o próprio sangue da placenta. Coisa de índia parideira. Só não comemos a placenta, mas guardamos no congelador para levar para casa e depois colocar na terra, onde plantaremos uma árvore por cima. A placenta é muito rica simbolicamente, afinal, foi o órgão responsável pela nutrição e respiração da Nina enquanto esteve na barriga. Uma vez que o cordão havia parado de pulsar, Arthur e Aurora cortaram-no.

Nina passou por alguns exames no meu colo, com todo respeito, e depois por alguns outros na cama, do meu lado. Foi pesada e medida e me espantei com seus 3,530kg e 51,5cm! Eu também fui examinada, para ver se precisaria levar algum ponto no períneo. Eu tinha certeza que, pelo tanto que tinha ardido, precisaria de algum ponto. E aí, a notícia pra fechar com chave de ouro meu parto perfeito: períneo integro! Sem lacerações! Com algumas escoriações, é verdade, mas são machucadinhos tão pequenos que não necessitariam de pontos.
Fiquei sentada na cama com minha filhota, dando o peito, que ela logo sugou com força e durante muito tempo. As pessoas na casa iam e vinham, conversávamos e tal… E nem me dei conta de que enquanto eu estava lá, as pessoas estavam trabalhando para deixar a casa toda arrumada, esvaziando e limpando a piscina (que depois foi enchida com água fria para Aurora e o papai brincarem um pouco – e onde o Nego comemorou tomando uma cerveja!), colocando panos de molho, guardando objetos… Quando vi, a casa estava toda arrumada.
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Bateu uma fome danada. Comi pão, depois pedimos pizza. E aí nossa equipe começou a se despedir. Eu não tinha palavras para agradecer a cada uma daquelas mulheres e acho que nunca terei. Cada uma, com seu lindo trabalho, fez com que meu sonho por um parto natural e domiciliar se tornasse realidade. E elas, sábia ou modestamente, me respondiam que não fizeram nada, que eu quem fiz tudo e elas só ficaram olhando.
Mas eu sei que meu parto não teria sido possível sem a presença de cada um ali. Arthur, com sua calma, paciência e força, me deu apoio emocional e físico. Junia, com doçura, delicadeza e um toque firme, me trouxe alívio para a dor. Kalu, com sua experiência e sabedoria, me trouxe tranquilidade e ainda registrou com seu lindo trabalho imagens com as quais logo poderemos relembrar e compartilhar esse momento. Sintia, apesar de não estar fisicamente no parto, já nos havia passado toda segurança. Jordânia e Eliane, com total entendimento do termo “humanização” e confiança que mulheres sabem parir, cuidaram de monitorar que tudo ia bem, sem em momento algum desrespeitarem minhas escolhas. Minha mãe, Rejane, que mesmo com seu silêncio e um pouco de temor, não deixou de me apoiar e de estar aqui comigo quando eu pedi. Minha tia, Giovana, com seu coração enorme, que cresceu como cresceu seu apartamento para abrigar a chegada da Nina. Aurora, com seu amor e confiança em mim, participou de tudo com naturalidade e recebeu a irmã como um presente há muito esperado. E claro, minha pequeNina, que foi a razão para que todos estivéssemos ali, naquele momento, me dando a experiência mais fantástica que um ser pode viver.
Gratidão a todos vocês! Estou em êxtase!

Nina nasceu em Belo Horizonte, no dia 11 de janeiro de 2015, às 13:50, no apartamento da minha tia, com a equipe de parto domiciliar do Sofia Feldman, pelo SUS.

 

 

 

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