27
dez
2014

Por que a Globo NÃO vai mostrar um parto natural?

Sem Título 3

 

Se existe algo perigoso nesse mundo, que provoca grandes revoluções são mulheres que pensam. Veja a maternidade: ela está resumida a superficialidade. O quartinho, o carrinho, os acessórios modernos. Pouco se pensa sobre parto. Afinal, tanto faz para muitas. Ninguém é menos mãe porque faz uma cesárea. Um bebê que é arrancado fora do seu tempo, às vezes por motivos esdrúxulos como medo do trânsito ou um pai que fará uma viagem internacional, miopia; um bebê que é desnecessariamente sugado, esfregado, separado de sua mãe. Mas tanto faz. Ele sobreviveu. E a mulher que passou por uma cirurgia também. Ela propaga aos quatro ventos que a cesárea foi uma escolha indolor. Indolor porque ela está entupida de remédios para que as 7 camadas de tecido se recupere.

Como revelou a pesquisa da FIOCRUZ mais de 70% das mulheres desejam um parto normal no início da gestação. E mais de 90% das usuárias dos planos de saúde acabam em uma cesárea.

O que nós, ativistas, defendemos não é simplesmente um parto normal que é tão violento quanto uma cirurgia. Defendemos sobretudo o protagonismo feminino.

O que é ser protagonista? É escolher baseada em informações de qualidade o destino da vida. Quando falamos de parto estamos dizendo sobre o direito de ser informada das escolhas. Escolher como quer parir, com quem, em que posição, quais procedimentos aceita ser submetida e em que condições. Não estamos querendo dizer que precisamos ir para a faculdade de medicina. Estamos dizendo: o corpo é seu. Saiba o que vai acontecer com ele e escolha o que QUER que aconteça com seu corpo.

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Juliana procurou assistência domiciliar do SUS de BH e foi encorajada. Apesar de episódios de contrações. De estar por muitas semanas com bebê pélvico sempre foi lembrada de acreditar no seu corpo.

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Sara teve diagnóstico de parto prematuro. Ficou em repouso absoluto desde 21 semanas. Pariu com mais de 38 em um parto com expulsivo de mais de 6 horas.




Ontem a Globo prestou um enorme desserviço mostrando a personagem principal da trama da novela Império escolhendo por um parto normal gemelar. Na cena Lilia Cabral diz que irão prepara-la para uma cirurgia. Ela é conduzida, de cadeira de rodas, sem a presença do marido (contrariando a Lei do Acompanhante que garante a presença de uma pessoa escolhida pela mulher durante TODA a internação da mesma). Lá dentro, a atriz é informada que será submetida a uma cesariana. Ela diz: mas eu combinei com meu médico que seria parto normal. Eu não quero ter a minha barriga cortada.

Lá fora Lilia Cabral é informada que a parturiente não aceita a cirurgia e diz que deixou o melhor médico a disposição. Completa dizendo que a cirurgia é o mais seguro.

O desfecho da história é que a menina que vai tentar o parto a qualquer custo coloca a vida dos filhos em risco.

O que toda essa cena quer dizer? A mulher conduzida por uma cadeira de rodas. Quantas vezes em nossas vidas somos conduzidas por situações que não são nossas escolhas? Um casamento? Uma profissão? Quantas de nós somos conduzidas para longe da nossa vontade e das nossas verdades internas?

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Sara conduzindo, por ela mesma seu bebê Guilherme amparada e incentivada por Adrinez Cançado Enfermeira Obstetra.

Quantas vezes ficamos expostas e sozinhas?

Lá fora a sociedade, dona do dinheiro, do império, determina o destino. Embora a cirurgia cesariana seja 3 vezes mais arriscada que o parto normal a Lilia Cabral diz que os médicos optam pela cesárea por ser mais seguro. Seguro? Como explica a mortalidade materna e neonatal do Brasil que não diminui em decorrência ao excesso de cesáreas desnecessárias? Seguro pro bolso dos Obstetras que não tem que desmarcar consultório e como a Lilia Cabral mesmo diz em 15 minutos está resolvido o problema.

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Verlaine estava com seu bebê coroado e sentiu dor mas MUITO prazer no seu parto

Lá dentro a mulher, sozinha, em trabalho de parto tenta lutar por seu corpo. E a lógica exposta e invertida da Lilia Cabral: não é momento de vaidades. Como se o desejo de não querer uma cesárea fosse simplesmente para evitar a cicatriz da barriga. Grande parte das atrizes globais fazem suas cesáreas com 37 semanas para que seus corpos não se deformem e ainda saem da mesa com uma lipo. E cicatrizes em nome de uma vaidade. E bebês na UTI em nome da vaidade. Por que a ÚNICA garantia de que um bebê está pronto é o trabalho de parto. E a maturação termina durante o trabalho de parto.

É claro que a emissora que sempre teve o rabo preso com militares e governo vigente usa a voz comum da sociedade para fazer a sua. Coroa de louca, vaidosa e inconsequente a mulher que deseja enfrentar o sistema. E como consequência sofre a punição de ver seu filho em sofrimento fetal.

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Milena teve um parto domiciliar pelo SUS de BH depois de 20 horas de trabalho de parto.

Ela nunca ia dizer que o parto tem dor sim, mas tem muito prazer, apoio, superação, protagonismo. Quando Napoleão tomou a coroa da mão do Papa e colocou, por ele mesmo, em sua cabeça, a sociedade mudou. O mundo mudou e não era mais a igreja que determinava a escolha do governante.

Quando uma mãe pega, por ela mesma, seu bebê e o conduz para fora de seu corpo uma revolução acontece. Essa mulher nunca mais aceitará, ao menos que haja real necessidade, ser conduzida por outrém. Nunca permitirá que seu corpo seja violado sem real necessidade. nem o seu, nem de seus filhos. Não aceitará verdades, nem do governo, nem do pai, nem do companheiro, nem do médico como  absoluta. Ela se coroou como protagonista de sua história.

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Muito mais seguro são mulheres a posar, maquiadas, deitadas com os braços amarrados, com o bebê, segurado por outrém, de cabeça para baixo, com as entranhas abertas. Mulheres que pensam ter escolhido o mais seguro e indolor para continuar a financiar a industria farmacêutica. Mulheres que continuarão a desacreditar em seus corpos e darão leite artificial em mamadeiras tecnológicas. Que terão grana para terceirizar o cuidado de seus filhos que receberão amor de profissionais pagas. Crianças que terão tecnologia e presentes caros e ausência de presença parental. Uma sociedade que deixa o pai do lado de fora no parto, na criação e comemora o pai que ajuda, quando a responsabilidade de cuidado com a criança é de ambos.

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A Globo está em seu papel de manter a ordem vigente. Porque parir é mesmo perigoso. A primeira  coisas que se faz depois de parir  é desligar a TV. A segunda é mudar o mundo.

Ps1: Nem toda mulher que faz cesárea vai dar mamadeira ou terceirizar a infância
Ps2: Existem cesáreas necessárias

 

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