3
nov
2014

Relato de Parto Domiciliar Kalu – Fevereiro de 2007 BH/MG

Foto: Júlia Jardim

Foto: Júlia Jardim

Eu nunca sonhei em ser mãe, apesar de amar criança. Pensar em ter um filho era algo distante, colocado bem lá no fundo do baú de minhas prioridades.

Conheci Maurício no final do ano de 2006, e em junho de 2007 me descobri grávida. Ele morava em Belo Horizonte, eu em São Paulo. Apesar do amor que eu sentia por ele, tinha medo de não dar certo. Minha primeira idéia foi de que meu filho nascesse em São Paulo, porque temia a ausência da minha mãe para me ajudar nos primeiros dias (ou meses) de vida. Mas essa decisão refletia o medo de aceitar que minha vida iria mudar violentamente: além de nascer como mãe, teria que parir a esposa e companheira. Confesso que nascer como mãe foi muito mais fácil do que parir a idéia de ser esposa, e ainda é.

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Por vezes, senti um medo paralisante – talvez por isso tenha adiado o planejamento do parto. Estava tentando buscar algo para me segurar, com medo, tentando não me desintegrar. O yoga foi fundamental para que eu mantivesse uma certeza: tudo é perfeito.

O médico que me atendia desde a adolescência foi o ginecologista que escolhi para o pré natal. Era o típico cesarista, que fazia ultrassons em todas as consultas e tratava a gestação como patologia.

Mas o grande ponto de mutação, que me fez sair do plano de uma cesárea com médico do plano e doula e caminhar em direção a um parto domiciliar, se deu no dia do meu chá de bebê, que minha mãe insistiu muito que eu fizesse. Apareceu pouca gente, devido a uma chuva torrencial que lavou a cidade cinzenta. Eu me sentia estranhamente triste. Hoje sei que eu estava desempoderada. As pessoas chegavam e falavam sobre o imenso tamanho da minha barriga, contavam histórias tristes de bebês que haviam passado da hora, de cordões enrolados.

De repente, perguntaram-me como seria meu parto. Eu titubeei. Disse que ficarei em casa o máximo possível, com uma doula. Meu pai se intrometeu: “Na minha casa não. Na primeira contração te levo para o hospital. Não quero doula nenhuma aqui”.

Passei o restante do evento cabisbaixa, angustiada. Meus planos eram tão insólitos quanto meu desejo. Comecei a sentir tontura e náuseas. Despedi-me de todos e fui dormir. Deitei e chorei com medo. Minhas águas transbordavam: e agora? o que faria? Meu companheiro se aninhou comigo. Eu disse a ele: “O que você acha de eu parir na casa de parto do Sofia Feldman, em Belo Horizonte”? Eu já havia recebido esta orientação da Ana Cristina Duarte – na época doula, hoje obstetriz.

Era uma mudança brusca, e exigia do meu companheiro uma quebra de paradigma. Ele ficou feliz porque teria a certeza que estaria presente na hora do nascimento, mas havia muito medo: “Mas lá é SUS, não é? E se você morrer? E se algo acontecer com nosso filho?”. Eu disse apenas: “Quero parir longe disso tudo aqui. Quero só fazer aquilo que eu acho certo”.

Foto: PaulaLyn

Foto: PaulaLyn

As semanas se passaram, e comuniquei a minha mãe minha decisão. Ela ficou perdida, porque esperava que eu ficasse em São Paulo até meu filho ter 3 meses. Era uma cesárea em nossa relação, uma ruptura: eu precisava, violentamente, selvagemente, matar a filha insegura para dar espaço à mãe.

Entre lágrimas e medo, arrumei minhas malas. O que eu havia acumulado em 27 anos cabia no porta malas de um corsa velho. Alguns livros, artigos de Yoga e meditação. Dentro de mim, muita história – dentro de mim, uma nova vida. Com 37 semanas, descobri um desejo ardente por um parto natural, e uma coragem indescritível para romper com tantas verdades. Parir a 700 km da família. Nascer como mulher, como mãe, como esposa – tudo junto ao mesmo tempo agora. Mudar de estado, de estado civil. Tantos lutos, e tantos nascimentos. Chorava profundamente, com medo. Medo de nascer como mãe, medo de não saber como seria meu parto, nem onde meu filho iria nascer. Medo de querer o colo da minha mãe e estar longe. Medo de não querer ser esposa, de não gostar da cidade, de não ter amigos. Medo de sentir saudades dos meus amigos, de não ter um novo emprego. Medo, medo, medo.

Foi entre as lágrimas, no encontro com minhas sombras, que fiz meu ponto de mutação. Vi emergir toda a obscuridade da gestação. Até então, eu havia vivido a lua cheia, da plenitude, dos cabelos volumosos, da pele brilhante, da máxima disposição. Não tinha pensado definitivamente no parto e nem feito algum esforço para que ele acontecesse naturalmente. Havia um desejo tão forte quanto um castelo de areia.

Eu tinha apenas 4 semanas para fazer acontecer as coisas. Agora, eu sabia que minhas escolhas impactariam diretamente na vida que carregava no ventre. Na viagem de 700 km até Belo Horizonte, eu e meu marido fomos conversando sobre medos, ajustes, sobre parto. Até hoje, em nossas longas viagens pelo Brasil, acertamos nossos ponteiros.

A Casa de Parto do Sofia Feldman parecia a melhor solução. No dia seguinte a minha chegada em Belo Horizonte, uma doula veio em casa. Tirou nossas dúvidas e emprestou o livro ‘Nascer Sorrindo’, de Frederick Leboyer, que descreve o nascimento do ponto de vista do bebê, e todo o desrespeito que é cometido na hora que este pequeno ser chega ao mundo. Depois de se emocionar com a fantástica narrativa poética, meu marido ficou mais confiante de que o parto natural seria o melhor para nós.

Depois de aceitar o parto natural na Casa de Parto, no dia da visita à Casa de Parto do Sofia Feldman em que conheci Sybille, uma enfermeira alemã que fazia parte da equipe do Parto Domiciliar Particular, comecei a pensar na idéia do Parto em casa. Afinal a casa de parto fica do outro lado da cidade, a no mínimo 40 minutos de casa.

Chamei as enfermeiras para uma visita aqui em casa. Passamos uma tarde tirando dúvidas sobre o parto domiciliar, sobre uma possível transferência, em que circunstâncias isso aconteceria. Mas o que elas afirmavam é que eu era uma gestante de baixo risco, com bebê cefálico, dentro do peso.

A lista de itens para o parto em casa era: um plástico para forrar a cama, álcool absoluto, toalhas e lençóis limpos. Muito simples. A minha segurança foi deixando Maurício mais e mais seguro. E o valor do parto estava bem dentro do nosso orçamento. Estava decidido: eu ia parir em casa.

Uma semana antes do nascimento do Miguel, tive um alarme falso: contrações de 5 em 5 minutos, que duravam mais de 50 segundos. Indolores, mas as enfermeiras resolveram passar a noite, e nada. Por conta deste episódio, coloquei na minha cabeça que só as chamaria se algo mais evidente acontecesse.

Maurício, quando eu falava do parto, dizia: “não sei se quero assistir, não decidi qual será meu papel”. Eu respeitei, porque sabia que o parto era meu e estava feliz por ele apoiar minha decisão por um parto domiciliar, desconstruindo vários mitos interiores.

No dia 19 de fevereiro, percebi que meu tampão estava saindo. Mas também sabia que isso era apenas um sinal, que o nascimento do Miguel poderia demorar. Naquele dia me sentia diferente. Uma energia incrível tomou conta de mim. Naquele dia, fomos a pé a uma cachoeira do lado de casa. Fizemos amor nas águas frias, e subi uma montanha de volta para meu lar. A noite senti vontade de pular como um sapo no quintal. E fiquei muito tempo, nua, no quintal pulando pela quadra de grama, rindo, em um estado de loucura inexplicável.

Na madrugada tive contrações sem dor, mas não consegui dormir porque meu corpo tinha tanta energia que não conseguia parar. Vi o sol nascer aqui do quintal, que tem uma linda vista para as montanhas. Sentei para meditar e quando retornei havia uma borboleta amarela pousada em meu ventre. Naquele momento, senti que a chegada dele estava bem perto.

De manhã liguei para as enfermeiras, relatei sobre a perda do tampão. Elas vieram, mediram as contrações, me acharam muito tranqüila, e como estava no meu plano de parto, pedi para não ser tocada. Ficaram por mais de duas horas e tudo parou novamente. Senti sono e fui dormir.

Acordei 15 horas. A mulher não despertou, apenas a fêmea. Neste ponto do relato, os pensamentos são confusos. Não me lembro de dor, apenas do desejo de isolamento . Liguei um mantra no quarto do meu filho, fechei a janela e fiquei dobrando roupinhas.

Às 17 horas senti um frio estranho e resolvi tomar banho e colocar uma roupa mais quente. No meio do corredor minha bolsa rompeu. Chamei meu marido, que secou o chão e ligou para as enfermeiras. Tinha lido que depois que a bolsa rompia poderia demorar horas até o nascimento. Fui tomar banho e quando abaixei para tirar a calcinha senti uma dor muito forte. Achei que estava com dor de barriga. Sentei no vaso e novamente a dor me arrebatou. Gritei e senti algo girando dentro de mim. Coloquei a mão e senti a cabeça de meu filho.

Kalu dá à luz Miguel, que faz nascer Kalu (foto: arquivo pessoal)

Kalu dá à luz Miguel, que faz nascer Kalu (foto: arquivo pessoal)

Meu marido subiu desesperado com os gritos, e eu o expulsei de lá. Afinal estava no período expulsivo (risos). Levantei do vaso e comecei a pensar o que fazer se o neném nascesse sem ter ninguém lá por perto. Por sorte a enfermeira chegou. Segurei forte em suas mãos e disse: “A cabeça dele está aqui!”.

Ela não acreditou, e disse para que ficasse tranqüila. Quando olhou, viu que a cabeça estava lá. Levou-me do banheiro para o quarto, enquanto meu marido estendia o plástico e levava um banquinho para cima. Ao sair do banheiro, que é todo envidraçado, vi uma linda lua crescente com uma estrelinha embaixo. Meu marido colocou o mantra que havia escolhido para a hora do nascimento: Om Namah Shivaya – eu reverencio Deus que habita meu coração.

A enfermeira sugeriu que eu sentasse, mas eu queria ficar em pé. Ela disse: “Na próxima contração faça força e apóie suas mãos no banquinho”. Foi o que fiz, soltei meu corpo e senti a cabeça dele saindo totalmente. A sensação foi um ardor com um grande prazer. Mais uma contração, e ele saiu totalmente. A enfermeira o segurou, desenrolou o cordão de seu pescoço e me entregou no colo. Sentei e coloquei-o em meu seio. Meu marido estava ao meu lado, segurando minha mão.

Miguel mamou ainda conectado e depois que o cordão parou de pulsar, meu marido o cortou e pegou o bebê nos braços, com os olhos cheios de lágrimas. Eram 17h57. Pouco depois, a outra enfermeira chegou. Senti uma nova contração e senti minha placenta sair inteirinha. Guardei em um balde para plantar com a árvore da vida do meu filho. Deitei na cama para que me examinassem. Havia tido uma laceração de terceiro grau, que foi costurada com anestesia local. Enquanto faziam isso, meu bebê mamava com volúpia.

nascido Miguel, menino de luz (foto: arquivo pessoal)

nascido Miguel, menino de luz (foto: arquivo pessoal)

Às 19h30 levantei, tomei banho enquanto meu marido segurava Miguel. Em seguida dei banho no Miguel e vesti uma linda roupa laranja. Desci as escadas e fiquei aguardando as enfermeiras arrumarem o quarto.

A chegada do Miguel rompeu vários paradigmas: meus, de meu marido e de toda a minha família. Fui a primeira mulher, depois da minha bisavó, a parir. Afinal, até minha avó teve cesárea. Eu permiti que Miguel encontrasse sua hora exata de nascer, de acordo com as estrelas e cometas. Havia morrido, naquele 20 de fevereiro, a filha, a menina, a criança, para nascer a mulher mamífera que hoje eu também sou.

E quem diria: aquela que não queria ter filhos hoje ajuda mulheres a escreverem suas histórias, escolhendo o figurino e cenário de seu protagonismo. Em cada canto desta casa, a história da minha vida e do meu filho. No quintal, a placenta e árvore da vida. Os tacos do chão foram a estrada para seu engatinhar e andar. Cada pedaço do quintal é palco de suas brincadeiras.

Nascer não é fácil, nem sempre doce, às vezes dá medo, sempre dói. Mas é a melhor coisa da vida. Assim foi nascer como mãe, mulher e esposa. Assim foi nascer quem hoje sou.

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Sei que fui capaz de escrever a minha história com consciência, coragem, perseverança e ousadia. Não sabia o que esperar de um relacionamento que existia há 1 ano. Não sabia o que iria sobrar e se formar do incêndio da vida. E cá estou eu, mais madura, grata por mim, por meu caminho, por minhas escolhas. Meu destino encontrou a vocação da minha alma: partejar.

A cada parto revivo meu próprio parto, chorando quando alguém rouba a cena da mulher e vibrando quando uma nova mamífera nasce, como eu mesma nasci.”

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