21
mai
2015

Um outro olhar: Desmame abrupto e suas consequências

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por: Luzinete Carvalho, psicanalista apaixonada pela mente e pela Alma humana, esposa do maravilhoso Renato, mãe do lindo Francisco, que a ensina a cada dia novas maravilhas sobre o mundo, a Vida e os seres humanos. Deixou temporariamente os consultórios e os auditórios para viver a maternidade com alegria e plenitude. Atualmente está desenvolvendo um projeto que colocará a Psicanálise a disposição da Maternidade e Paternidade ativas, sendo a ferramenta para a busca do auto conhecimento e para a construção de famílias conscientes, integradas e felizes.

“Este relato fala sobre os efeitos negativos de um desmame abrupto, feito a revelia da própria mãe, causando alterações no comportamento da criança.

Este relato conta como foi possível reverter esses efeitos.

No relato, a própria mãe já diz tudo, conta em detalhes tudo que se precisa saber.

Porém, pensei que algum cuidado seria necessário antes de divulgar esta história.

Uma história que deve servir de exemplo, alerta e inspiração para todos os interessados!

Sempre recebo pedidos de ajuda sobre diversos aspectos da amamentação.

Ao longo dos anos, a maioria desses pedidos foram desesperados, de mães que NÃO queriam desmamar seus filhos, mas, ou estavam sendo pressionadas por pessoas ao redor, ou receberam um “ultimato” de algum profissional das mais diversas áreas de saúde ou educação para que desmamassem seus filhos.

A pressão e a recomendação eram, na verdade, frutos da ignorância que a sociedade se vê imersa atualmente.

Vi muitos casos de pediatras, ginecologistas, psiquiatras, cardiologistas, ortopedistas, dentre outros, dizendo que a mãe precisava desmamar o bebê/criança porque ela precisaria fazer uso de um medicamento específico, e que tal medicamento não poderia ser usado durante a amamentação.

Porém, sempre que uma pesquisa era feita, descobríamos que o medicamento era compatível com a amamentação, ou que havia uma outra opção de medicamento que poderia ser usado, sem nenhum problema, pela mãe que amamenta.

O caso da Fernanda foi o PRIMEIRO, em todos esses anos de ativismo e trabalho pró amamentação, que NÃO havia um medicamento que ela pudesse usar e amamentar com segurança!

O caso da Fernanda é de uma doença séria, que felizmente pode ser tratada e mantida sob controle, mas, ESPECIFICAMENTE no caso dela, o medicamento que era compatível com a amamentação não servia, e ela precisou fazer uso de um outro, ainda experimental, que é totalmente contra indicado para mães que amamentam.

Na verdade, confesso que quando ela me contou quem era a pediatra envolvida no caso, fiquei muito triste, pois conheço esta profissional, e, portanto, soube que este era um caso onde o desmame era realmente necessário.

Ainda assim, fiz algumas pesquisas na esperança de encontrar uma solução.

Agradeço a Fernanda, e dou a ela todo o mérito por sua imensa paciência em responder todas as perguntas que fiz, perguntas que ela já havia respondido, beirando a exaustão, para as outras pessoas nos grupos de apoio que ela procurou.

Extremamente compreensiva e paciente, Fernanda não se sentiu invadida por meu questionamento, e a tudo respondeu de forma sincera e objetiva.

Tendo visto que o desmame era realmente necessário, devíamos então olhar para outro lado, e buscar um jeito de ajudar a pequena Lorena a passar por esta situação da melhor forma possível.

Preciso ressaltar que não avaliei a criança, mas coube a mim ouvir e acreditar na mãe.

E esta mãe, que conhece sua filha melhor do que ninguém, tinha certeza que o desmame abrupto pelo qual a menina havia passado, estava interferindo de forma negativa no comportamento da filha.

Esta mãe, que tem um forte vínculo com sua filha, sabia que a menina estava nervosa, irritada e sofrendo por causa do tipo de desmame que precisou fazer.

E esta mãe, mesmo consciente da sua real necessidade de fazer uso do remédio, mesmo lúcida e coerente sobre isso, também estava sofrendo por ver a filha sofrer!

Conversamos mais, e ela me afirmou que poderia ficar 15 dias sem a medicação, sem que isso representasse risco ou dano para sua saúde.

Ressalto que em nenhum momento agimos de forma irresponsável, tudo foi muito bem analisado dentro das reais possibilidades existentes.

Com esse pequeno prazo de 15 dias em mãos, que era pouco, mas era tudo que tínhamos, começamos a traçar um plano para reverter o desmame abrupto e tudo de negativo e triste que ficou a partir dele.

Preciso reforçar que o plano para reverter o desmame abrupto foi feito EXCLUSIVAMENTE para este caso.

Foi planejado e pensado APENAS para esta dupla mãe-filha, levando em conta o contexto e a real necessidade das duas.

E foi por isso que funcionou, porque foi pensado exclusivamente para elas, levando em conta a história e contexto DELAS.

Um plano que levou em consideração o desejo e as preocupações da mãe, e as necessidades da criança.

Uma longa conversa foi necessária, onde a mãe me relatou detalhes sobre a criança, sobre seu comportamento anterior ao desmame, e sobre acontecimentos posteriores ao desmame.

Estou dizendo tudo isso para que fique claro que este relato é um relato de sucesso porque foi feito um trabalho minucioso antes, durante e depois!

Fernanda teve a paciência e o trabalho de me passar relatórios diários de como estava a evolução do caso.

Este relato não deve servir como modelo para outros desmames.

Não recomendo o desmame abrupto, lembrando que foi justamente para reverter os efeitos negativos advindos de um desmame abrupto necessário, que todo este trabalho foi feito.

Cada criança tem um ritmo próprio, e deve ser respeitada em sua individualidade, um desmame gradual e respeitoso geralmente precisa de mais tempo para ser feito.

Este relato serve para demonstrar os efeitos negativos que um desmame abrupto pode causar, serve para mostrar que a criança pode ficar emocionalmente abalada, e mesmo que não carregue isso para a vida adulta, só o sofrimento passado na infância, deveria ser motivo suficiente para que desmames desrespeitosos fossem evitados!

Dito tudo isso, esclareço que o plano consistia basicamente em conversar com a pequena Lorena, que carinhosamente chama o seio da mãe de “Ti”, explicando de forma simples e clara que a mamãe precisava tomar o remédio para ficar bem, para ficar saudável e cuidar e brincar com ela.

Desta forma, a intenção era desvincular o remédio de uma idéia negativa, como sendo o responsável por ela não mais poder mamar, e associar o remédio a algo bom: “para ajudar a mamãe ficar saudável”.

O segundo ponto importante, era desfazer a ideia de que o mamá havia estragado, ou estava dodói.

E por fim, a intenção era ajudar que a Lorena pudesse fazer parte ativa de seu desmame, e não como foi da vez anterior, apenas sendo comunicada que não mais poderia mamar, sendo veementemente impedida de mamar.

Desta vez ela poderia voltar a mamar, e teria um tempo para “se despedir” do “Ti”.

Desta vez ela participaria ativamente do processo, contando e marcando os dias no calendário, sabendo quando poderia mamar e quanto tempo teria para se despedir.

E assim foi feito.

Embora não houvesse garantias sobre o resultado, tudo correu muito melhor do que poderíamos esperar.

Fernanda esteve consciente o tempo inteiro sobre seu papel neste processo, conduzindo amorosamente, e com muita coragem, a filha, rumo a um desfecho saudável e alegre para a história de amamentação que viveram.

Lorena compreendeu tudo que lhe foi dito, e pôde viver o desmame de uma forma menos traumática, com mais respeito e envolta em um profundo amor por parte de sua mãe.

O processo foi tranquilo e emocionante para ambas.

E ao término, quando se despediu do querido “Tí”, Lorena deixou de apresentar os comportamentos irritados, nervosos e ansiosos, que a mãe havia percebido e relatado.

Lorena deixa muito claro a enorme diferença que um desmame respeitoso (embora com tão pouco tempo) teve para ela, especialmente quando, ao ver um outro bebê mamando, mostrou orgulhosa que também podia mamar, e o fez com alegria e amor, como a própria mãe conta.

Enfim, feitos esses esclarecimentos, deixo o relato de uma das mães mais fortes, corajosas e determinadas que já tive o privilégio de conhecer:

Luzinete R. C. Carvalho ( Psicanalista )

 

Por FERNANDA MASIERO:

“Sempre sonhei em ser mae, achava lindo uma mãe amamentando seu bebê. Já me preocupava com isso desde antes de engravidar, pesquisei muito, nunca achei que teria problemas com isso, eu não tinha bico mas a obstetra sempre disse que não teria problemas.

Quando a Lorena nasceu, logo veio para o peito, mas ela não pegava, passamos os três dias na maternidade insistindo para que ela pegasse, foi quando a menina do banco de leite sugeriu o bico de silicone, Lorena pegou na hora, mas infelizmente meus problemas nãomse acabaram ali, Lorena passou os dez primeiros dias no peito, literalmente grudada, a essa altura já não usava mais o bico.

Como ela chorava demais um dia ordenhei e quando começou a gritaria depois de eu dar o peito, ofereci o leite no copinho, ela tomou tudo e finalmente dormiu. Voltei ao BLH e expliquei o que estava acontecendo, pesaram ela e ela tinha perdido muito peso, expliquei que ela não fazia xixi, as meninas mandaram eu tomar a semente do algodoeiro e continuar a LD e voltar em dois dias, assim eu fiz e minha princesa continuou perdendo peso, foi quando a fofa da pediatra mandou em dar complemento, assim eu fiz, mas passei a dar na mamadeira (tenho problemas de coordenação e estava muito complicado eu dar no copinho).

Vocês devem imaginar que logo ela não quis mais o seio.

Entrei em desespero, abri um tópico na GVA e uma colega indicou que eu fosse com a Lorena na dra. Nina.

E assim Deus colocou um anjo na minha vida!

Dra. Nina nos atendeu e tirou todas minhas dúvidas, me examinou e falou que o complemento era realmente necessário.

Na época fiquei frustrada, mas Dra. Nina me ensinou como fazer para dar o complemento e para que ela voltasse para o peito e deu certo!!

Ela tinha 30 dias na época, segui todas as orientações da Dra. Nina, afim de aumentar minha produção, mas infelizmente não consegui ser exclusiva.

Com 6 meses, eu precisava mas não queria desmamar.

Mais uma vez dra. Nina me deu segurança para ir em frente.

Com 1 ano, minha médica pressionou para que eu desmamasse, dessa vez eu nem cogitei a hipótese, tinha colocado em minha mente que eu amamentaria até os dois anos ou mais.

Quando ela completou 2 anos, voltei na Dra. Nina para pedir dicas de como desmamar para que ela não sentisse tanto, mais uma vez dra. Nina me encorajou a seguir adiante, somente orientou a retirar a LD e amamentar somente 3 vezes por dia, já que ela solicitava pelo menos umas 10 vezes por dia e caso houvesse a necessidade de um desmame ela não sentiria tanto.

Assim eu fiz.Infelizmente quando a Lorena tinha 2a e 7m, a até então Esclerose Múltipla que estava adormecida, resolveu dar as caras, era chegada a hora de desmamar, as medicações não eram compatíveis com a amamentação.

Nesse período de 2a e 7m, pesquisei muito, procurei no GVA, com Dra. Nina, busquei alternativas, porém todas possíveis alternativas eu já tinha tentado e não surtiram efeito no meu caso ou eu não suportava os efeitos colaterais.

O pior, teve que ser um desmame abrupto, eu não tinha tempo, quando tenho as crises, tenho que agir rápido, pois perco movimentos do meu corpo e se eu demorar posso ficar com sequelas.

Os médicos sugeriram internação e sim, fui imprudente, mas não suportava a idéia de deixar a Lorena sem o Ti ( forma como ela chama o peito) e sem minha presença, era demais para nós. Depois de 3 dias procurando um hospital que fizesse a medicação sem internar, finalmente achei um. Então eu ia para o hospital, tomava a medicação e voltava para casa, quando eu chegava ela corria me abraçar e pedir o Ti, expliquei para ela que eu não podia dar o Ti porque o remedinho que eu tomei para ficar bem tinha estragado o Ti, mas que ela sempre teria a mim e poderia me dar um abraço bem apertado toda vez que ela quisesse o Ti, ela chorou mas entendeu e assim foram se passando os dias, hoje eu entendo que ela sempre acreditou na volta do Ti.

Nesse período ela ficou muito nervosa e não aceitava sair de perto de mim nem para passear com o pai.

Perdi as contas de quantas vezes ela, com os olhos marejados perguntava se eu não a amava mais e quando eu dizia que a amava demais, ela perguntava então por que eu não dava mais o Ti para ela.

Todas as vezes eu explicava paciente para ela e perguntava se ela queria fazer carinho, e o que me cortava o coração era que ela não aceitava e saía sempre com os olhinhos cheios de lágrimas, mas tentava disfarçar para não me ver triste.

E quantas vezes, enquanto ela dormia e sonhava pedindo o Ti e chorava, nossa isso acabava comigo.

Para quantas pessoas que ela nem conhecia e ela olhava e falava: infelizmente a mamãe não pode mais me dar o Ti, porque o remedinho estragou o leite dela.

Todos me diziam que logo ela esqueceria e eu me perguntava ‘quanto tempo dura esse logo?

Com um mês do nosso desmame, ela pegou minha mão e falou: que bom mamãe que você não vai mais pro hospital tomar o remedinho né? e eu falei: é sim filha, ela respondeu: então você não está mais dodói né? , e quando eu respondi que não , ela começou a pular e falar: Eba, então agora você pode me dar o Ti!!!

Quando eu expliquei novamente, ela caiu num pranto doído e sentido, foi aí que eu entendi que ela sempre acreditou na volta do Ti.

Foi num tópico do grupo Criação com Apego, que uma colega sugeriu que eu procurasse um psicólogo e quando eu pedi indicação, marcaram a Luzinete, aguardei ansiosa por essa indicação, mas a Luzinete não aparecia, eu estava desesperada e não aguentava mais ver minha menina sofrer.

Tomei a liberdade e mandei uma mensagem para ela, explicando o que aconteceu e pedindo uma indicação.

Foi então que mais um anjo entrou na minha vida.

Ela explicou que não tinha indicação para me dar e me ofereceu sua ajuda.

Mais que rápido eu aceitei.

Expliquei tudo o que aconteceu e ela perguntou se eu não poderia voltar a amamentá-la, nem que fosse por um período curto.

Eu poderia ficar no máximo por 15 dias, pois minha medicação exige certos cuidados, se eu passasse desse período sem medicação eu deveria internar para ser monitorada no retorno da medicação, sem contar os riscos para minha saúde.

Luzinete falou, o período é curto, mas vamos reverter esse trauma!!!

Eu me animei e ela então me explicou que primeiro eu deveria desfazer a ideia dela de que o Ti tinha estragado.

E depois, deveria dizer que o Ti estava triste por não ter se despedido e que ele queria se despedir e que para isso a mamãe deixaria de tomar o remedinho por alguns dias para eles poderem se despedir.

E também eu deveria mostrar para ela que eu era feliz por ter o remedinho para que eu ficasse boa e pudesse brincar com ela.

Segui tudo a risca, quando ela me pediu o Ti, a abracei e falei que o Ti estava triste porque não pode dar tchau e que ele queria se despedir.

Nesse momento, acho que foi o choro mais sentido dela e ela falou soluçando que também queria dat tchau.

Nesse dia foi a primeira vez que ela aceitou fazer carinho e dormiu segurando meu seio com as duas mãozinhas e falou que ia ficar feliz por se despedir!

Marcamos a data no calendário para ela ir se familiarizando com ele, primeiro ela foi pintando os dias que faltavam para ela poder ter o Ti e depois fomos marcando quantos dias faltavam para eles se despedirem.

Ela foi pintando bem animada e quando chegou o grande dia, ela veio e mamou, me olhou e falou: Ti eu amo muito você, mas não sai mais leite daí! Deu um beijo e não pediu mais naquele dia.

No dia seguinte ela pediu 3 vezes, mas só punha a boca e saía.

No terceiro dia nao pediu e assim foos alternando, ela se desinteressou do calendário e vivia falando como estava feliz por poder se despedir do Ti.

Nessa fase, o dia mais lindo e que me emocionou, foi quando ela viu a priminha de 2 meses mamando, ela esperou a neném parar de mamar para então pedir o Ti e mostrar para a priminha que ela também mamava, mostrou com tanta alegria, com tanto amor e tanto orgulho, que me senti vitoriosa por ter sentido ali que não tinha mais traumas nela e sim uma lembrança muito gostosa por tudo o que passamos.

Várias vezes ela fala que ficou muito feliz por ter se despedido do Ti, que ele é lindo e que o ama muito.

Vez ou outra ela pedi o Ti, mas para fazer carinho:-) /:-) .

Sou muito feliz e grata por tudo ter acontecido assim!!

Obrigada Dra. Nina, por ter me ajudado para que esse momento acontesse e se prolongasse!

Obrigada Luzinete, por ter me acolhido e ajudado com minha filha num momento tão doloroso!”

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