27
fev
2015

Um Outro Olhar: O caminho até o mais lindo dos paraísos

Texto escrito por Anne Rammi  em 27 de fevereiro de 2012 para o extinto Mamíferas. A autora autorizou a publicação neste espaço.

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Por Anne Rammi: Mãe de Joaquim e Tomás e especialista em coisa nenhuma. Desenha, canta, pinta e borda. Escreve e se mete em encrenca desde que nasceu. Atua como editora do Mamatraca, é uma curiosa que vive buscando informação interessante nas esquinas da maternidade fora da curva, com amor. Mas só quando tem tempo.

Por: Anne Rami

É como você decidir fazer uma viagem ao local mais incrível que a natureza já criou. Se optar por ir com suas próprias pernas, vai levar mais tempo, você vai se cansar mais, pode ser que pegue chuva e enfrente o frio da noite. Mas vai sentir os aromas, tocar as texturas, ver de perto e vivenciar a experiência. Se optar por ir de carro, você certamente vai concluir o percurso com menos esforço, e talvez uma sensação de conforto. Pode até dizer que conheceu aquele lugar. Mas simplesmente não viveu a experiência na sua totalidade.

Optar por ter um filho por vias cirúrgicas é  para mim entrar num carro que te leva ao mais lindo dos paraísos. Mas é um carro pilotado por um medico que decide o percurso. Um carro que tem os vidros tapados por um pano azul. E que muitas vezes, entra em um túnel para cortar caminho.

Meu primeiro filho nasceu de uma cesárea agendada “com urgência” por motivo de placenta madura, e um grande bebê que estaria privado de alimento. Na época, minha falta de conhecimento técnico não me deixou duvidar do medico, e chorando eu fui  para a mesa, achando que havia dado azar. De todas as mulheres do mundo, logo eu tenho que ter essa doença gravíssima de placenta madura.

De todas as pacientes do meu médico, que garantia ser o campeão nacional em partos normais, logo eu teria que passar por uma cirurgia na sexta feira a noite, fora de trabalho de parto, antes do feriado da Páscoa. Para ouvir nascer um menino do tamanho normal, peso normal e todo o resto normal. De fato, o menino mais lindo do universo, e que até os dias de hoje me faz suspirar um amor insano: que fique bem claro para quem se sente atacada quando o assunto é a via de nascimento que eu sou a prova viva de que o jeito que  a criança vem ao mundo não te faz uma mãe melhor ou pior e muito menos tem qualquer relação com o amor que você sente por aquela criança.

Mas diz tudo sobre a sua experiência, sobre sua disponibilidade de se deixar levar pelos processos da maternidade e de sua entrega para esse momento de transformação: de gravida a mãe, eu fui com minhas pernas ou me deixei levar dentro do carro com janelas tampadas, enquanto meu marido, médico, família, condição social ou quem quer que seja sentava ao volante?

Essa era a sensação que eu tinha com meu primeiro bebê no colo. Não podia estar certo que aquela era a forma de se tornar mãe. E esse bichinho da duvida começou a me comer por dentro. Informação, sites, relatos e em pouco tempo eu conclui o óbvio: eu havia sim sido a vitima conivente do sistema cesarista em que a gente vive. Não havia outra forma senão adentrar o caminho da transformação. E começar do começo, trilhando tudo à pé.

Nos 20 meses que separaram os nascimentos dos meus dois filhos, eu cheguei a conclusões reveladoras e me sentia cada vez mais certa da minha decisão, obter meu VBAC pagando o preço que fosse necessário. Quando a gente fala de pagar o preço, não significa somente arcar com a despesa monetária de uma equipe humanizada, significa arcar com todas as consequências de suas decisões. Significa tomar a frente delas, com seus próprios recursos. É parar de acreditar em desculpas, justificativas e motivos que te isentam da responsabilidade. E se por algum revés do destino for preciso usar um carro, que seja você no volante. E por favor, evite os túneis.

O dia de parir meu segundo filho chegou. Eu até então tinha somente a suspeita, adquirida pela palavra de outras mães empoderadas, de que aquela experiência seria algo revelador. Eu disse uma vez que não há palavras para descrever a emoção de se parir um filho. E repito: não vao inventar essas palavras.

Não se trata simplesmente de optar pelo local, pela via, pela anestesia ou pela dor. Não se trata de escolher a maternidade ou ficar em casa, dar a luz com parteira ou com médico, na banheira, ou de cócoras. Ter um filho do jeito que a natureza previu é fazer parte de algo maior. É finalmente estar conectada com uma sensação de perfeição que eu nunca antes senti, e suspeito que não existam oportunidades como essa na vida.

Parindo o meu filho o mundo era perfeito e tudo fazia sentido.

É um pensamento tão grandioso e ao mesmo tempo tão simples que hoje não vejo sentido em ver ninguém optando por pegar o carro para ir ao paraíso. E hoje, tendo ido até lá de carro e à pé, me vejo na porta de entrada tentando fazer com que todas aquelas que cruzam meu caminho já motorizadas desistam da carona.

Não é vontade minha militar pela causa, mas o pós VBAC me trouxe um aprendizado: tendo experimentado a melhor das sensações beira o impossível não desejar que outros a experimentem também.

Quando eu vejo uma mulher ainda não mãe eu desejo que ela nunca entre no carro. Ainda que a oferta seja muito grande, e que para trilhar a pé hay que tiener cullones.

Eu desejo que antes de engravidar ela tenha a curiosidade de pesquisar um pouco sobre o processo que viverá e que por sorte ou influencia, colha informações decentes, baseadas em evidências, e não fique com o senso comum da violenta medicina obstétrica, com quem um dia eu me relacionei.

Eu desejo que carregando seu filho no ventre, ela tenha do seu lado companheiros, maridos ou não, médicos ou não, doulas ou não. Mas gente que a ajude a se manter na crença factível de que tudo está planejado para dar certo e não o contrario.

Eu desejo que ela não seja infestada de medos, insegurança, exames, taxas, medições e intervenções desnecessárias, que só servem para tentar mantê-lá no cinto de segurança do banco de trás, fazendo-a acreditar na mentira de que é perigoso andar com as próprias pernas.

Eu desejo que ela entenda que andar de carro é muito mais perigoso.

Quando chegar perto da hora de esse bebê nascer, caso ela esteja na companhia errada, eu desejo que ela por ser curiosa, por ser influenciada ou por ser conectada consigo mesma, não permita que seja feita nenhuma intervenção absurda. Eu desejo com todas as minhas forças, que ela pule do carro andando se assim for preciso.

Eu desejo que ela acredite que os arranhões de pular do carro são menores e mais fáceis de curar do que a cicatriz que fica para sempre, se ela se deixar levar dentro dele.

A cicatriz de uma cesárea não está fechada quando o médico arranca os pontos. O amor pelos meus filhos vem me ensinado que no exercício da maternidade, não há como passar ilesa. Eu posso ter tomado o caminho mais simples, mas o preço dessa carona tem que ser pago também. E a conta vem em bandeira dois.

Eu desejo que aquelas que ainda tem a chance de mudar o curso do trajeto até o paraíso, consigam me enxergar na porta de entrada, a mim e a tantas outras mulheres que carregam consigo a experiência de um VBAC, abanando os braços em alerta: saia do carro, arranque os panos azuis, não pegue os atalhos!!!

Essas mulheres que gritam na porta vivem seus próprios exercícios diários de perdão, por um dia terem ficado no banco de trás, cegas para aquelas que assim como elas hoje, já acenavam para os perigos de não querer assumir o peso do próprio corpo no caminho que leva todas nós ao mais lindo dos paraísos.

Natalia Rocha que em sua viagem optou por ser motorista e conduziu seu bebê para os braços

Natalia Rocha que em sua viagem optou por ser motorista e conduziu seu bebê para os braços

 

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